15 de jul. de 2006

" Canção da sesta

Se teus cílios de sereia
Te dão um ar peregrino,
Que de longe é ser divino,
Fada do olhar que me enleia.

Eu te adoro, minha selvagem,
Minha terrível paixão!
Com a mesma devoção
Do padre por sua imagem.

As florestas e o deserto
Perfumam-te as tranças rudes;
Tens na fronte as atitudes,
Do enigma e do incerto.

Como em torno do incensário,
Em teu corpo o perfume arde;
E fascinas como a tarde,
Ninfa do ar mais funerário.

Ah, o filtro, mesmo se forte,
Não vale tua delícia,
E conhece a carícia
Que faz reviver a morte!

Tuas ancas são amorosas
De teus seios e teus rins,
E arrebatas os coxins,
Com flexões tão langorosas.

Vezes, para ser vencida
Tua raiva misteriosa,
Prodigalizas, respeitosa,
O beijo como a mordida;

Tu me laceras, morena,
Com riso de algum despeito,
E pões depois no meu peito
Teu olhar, lua serena.

Sob teu sapato rendado,
Sob teus pés charmosos de seda,
Ponho de alma sempre leda
O meu gênio com meu fado.

Minha alma por ti se cura,
Por ti que és o lume e a cor!
És a explosão do calor
Em minha Sibéria escura."

Charles Baudelaire

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