18 de set. de 2006

Revivendo o passado distante ou O início de uma história

Exasperou-se de repente, um arrepio precorreu-lhe as costas fazendo com que estremecesse levemente, com o ar de mau agouro e tirou-a do transe da leitura, deixando apenas, uma sensação de doce pesar.
Naquele belo instante, onde a natureza parecia vangloriar-se de seu maior esplendor, o céu de um azul cor de anil, o riacho, mais adiante, caudaloso, os pássaros entoando as mais harmoniosas canções; e ela ali, podendo desfrutar de tudo que a vida tinha de bom para lhe dar.
Como era bom viver bem, estar ali!
Voltou novamente os olhos para sua leitura, pela milésima vez, lia “As mil e uma noites”. Poder-se-ia dizer, que já sabia algumas das histórias narradas por Cheherezade, de cor. Sentia-se bem com aquele livro, em geral, Isis era uma mulher solitária, tinha poucos, mas bons amigos.
Estava novamente respirando o ambiente idilicamente criado por Cheherezade, admirando-se da mesma, de sua coragem e abnegação, de sua criatividade, de seu poder de persuasão, de sua retórica; quando ouviu um clamor, um clamor distante. Trépida, olhou ao redor, nada viu, além da bela paisagem, da grama, do cavalo mais adiante, amarrado numa frondosa castanheira. Será que estava enganada? Havia mesmo escutado alguma coisa? Por um momento pensou em procurar por ajuda, mas percebeu a peculiaridade da situação. A quem ela iria ajudar? Nem sequer ouviu o que este grito distante queria dizer. Então, decidida, levantou-se, recolheu o pano que servia de proteção para seu corpo contra os insetos, dobrou, e dirigiu-se para o cavalo. Acariciou a cabeça do bicho, um belo exemplar de Mangalarga marrom, e este, servilmente, abaixou-se para que ela o montasse. Aos galopes, percorreu a fazenda, procurando por alguém ferido. Pelo pouco que conseguiu distinguir, aquele aflito chamado ao longe, pareceu-lhe ser uma voz feminina. Mas poderia estar enganada. Poderia ser um homem, um homem que sem forças, fraco, ficasse com a voz tão fina quanto de uma mulher. Era possível, sim. Rondou o local por mais de uma hora e nada encontrou. Foi até os casebres distantes, dos moradores locais, uma pequena comunidade que vivia próxima à fazenda e sondou os moradores para saber se alguém estava doente, ou ferido, pelo que parecia, todos estavam bem. Agradeceu e retirou-se velozmente, no seu amado Pedro, o cavalo que lhe era tão afeiçoado.
Quando já avistava a casa, e havia se convencido de que, aparentemente, tudo era obra de sua fabulosa imaginação, Isis ouviu novamente o clamor, só que dessa vez mais intenso. Ficou estarrecida. Meu Deus, de onde vem essa voz? E o que diz? Não consigo entender, se ao menos eu ... E então apertou os calcanhares contra a barriga do animal, que entendeu o sinal e disparou em frente. Lhe ocorreu que o som poderia vir de sua casa. Meu Deus, meus queridos, será que estão bem? Entregou o cavalo a Pequena, uma senhora de seus 50 anos, que conhece Dona Isis, como a chama, desde que nasceu. Pequena, como num acordo tácito com a madame, como também era chamada, pegou Pedro e o levou pelas rédeas à baia. Isis, antes contudo, inquiriu Pequena sobre os demais moradores da casa.
- Pequena, Pequena, onde estão meus queridos!? Me conte, Pequena! Aconteceu alguma coisa com eles? – Disparou Isis, num tom triste e desesperado.
- Não Dona Isis, que eu saiba, não. A última vez que os vi, estavam lá em cima.- Finalizou a frase olhando para cima, com os olhos acompanhando as palavras.
E Isis subiu correndo as escadas, exaltada, com uma leve aparência de lunática. Gritou por todos os cantos:
- Carlos, Carlinhos. Cadê você, meu amor?
E se dirigiu ao quarto do filho. O quarto estava vazio, ela aproximou-se da cama, dos objetos de decoração e achou tudo com um cheiro estranho, esquisito. Mas desviou sua atenção procurando pelo pai da criança, Henrique.
- Henrique, meu amor, onde está? Cadê vocês? Onde se meteram? Estão se escondendo de mim, né? Já adivinhei. – E com uma alegria zombeteira, com uma faceirice de menina,dirigiu-se para os cômodos procurando por eles. Na sua angústia feliz, gritava:
- Tá quente ou tá frio?
Nada obtinha como resposta. Pequena, subiu as escadas e viu à cena constrangida. Dirigiu-se para a patroa:
- Dona Isis, os criados falaram que Seu Henrique saiu com o menino Carlinhos no carro.
Isis arregalou os olhos, e não conteve sua fúria, descontando na pobre Pequena, que nada tinha a ver com isso. Num tom frio, porém enérgico, bravejou:
- E você deixou, Pequena? Quantas vezes eu vou ter que te dizer que Carlinhos não sai de carro sem mim. Você sabe que eu tenho horror a esses veículos. Você viu como João Alfredo ficou. Ai meu Deus, protege meu filho. Deixa só Henrique chegar, ele vai se ver comigo. Nunca dá bola para minhas advertências, para minhas fobias. Se acontecer alguma coisa com Carlinhos, eu não quero nem pensar!!! Sou capaz... ai, nem sei!

A CONTINUAR...

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