13 de dez. de 2006

Miscelânea de uma mente confusa. Será?

Bate- papo de duas pessoas globalizadas:
De que cor você gosta? Qual a sua língua favorita? Língua? Sim, idioma. Tantos, nem sei. Alguns nem conheço, mas só por ter um nome diferente, já acho bonito. E seu filme? Gosta de cinema? E teatro? E música? Qual tipo de música de que mais gosta? Eclético? É, hoje em dia todo mundo é um pouco eclético.

Reminiscências de um dia chuvoso
Não dá pra esquecer. Ontem, é ontem mesmo; caminhando pela rua, encontrei uma dessas figuras que é difícil definir como, mas que mexem de um modo intenso com você. Foi um rapaz, acredito que ele entregaria alguma coisa em algum lugar - estava numa bicicleta vermelha, com duas caixas: uma na frente, outra atrás, repletas de coisas, cobertas por um jornal de anteontem. O moço vinha fazendo balbúrdia desde lá embaixo. De onde eu estava, só ouvi os ruídos distantes. Quando enfim se aproximou, minha atenção, em geral dispersa e nada pragmática, voltou-se para ele. Não tinha como ser diferente: ele mexeu comigo. Em vários sentidos. O garoto é moreno, magro, blusa verde, eu acho, cabelos ondulados, em cima da bicicleta, pedalando lentamente, com um sorriso descarado no rosto. Daqueles sorrisos que te dizem: Pra quê tudo isso? E sabe o que ele disse? Primeiro como já disse, ele vinha falando desde lá de baixo, ao se aproximar pude ouvir:
- E você aí? Se você morrer, nasce outro! Se eu morrer, nasce outro. Se esse cachorro morrer, nasce outro.

Então olhou pra mim, riu, com aquele sorriso que já disse lá em cima, e continuou o monólogo:
- se essa mulher morrer, nasce outra.

E assim, dessa maneira continuou mexendo com todos na rua, a todos os desconhecidos falava a mesma coisa. Algumas pessoas riam e o tomavam como doido. Outras fechavam a cara e resmungavam qualquer coisa. Eu? Bem, eu fiquei meio apatetada, porque parecia que naquele momento eu era a única pessoa que realmente estava ouvindo ele. Ele continuou a pedalar a velha bicicleta abarrotada de coisas, vagarosamente, levando aquela cantiga pra outras pessoas, em outros sítios. E eu não me esqueci dele. Tanto que quando comecei a escrever esse texto, ainda não sabia bem o que dizer, sabia que tinha que dizer algo, uma vez que este blog não é atualizado há um século. E resolvi brincar, como de costume. Então me lembrei daquele enigmático rapaz de ontem, que com uma certeza inequívoca da morte, ria e se divertia disso, como se pra ele a desdita não fosse nada, não representasse pânico, medo, ou qualquer outra emoção dramática. E eu me vi nele. Talvez por isso tenha ficado gravado na minha memória. Isso tudo aconteceu quando eu voltava displicentemente, do festival de cinema francês. E achei essa cena digna de um filme. E comecei a escrever uma história na minha cabeça, sobre aquele rapaz, é claro. Como seria a vida dele? O que ele faz todo dia? Onde mora? Como? Com quem? Tem família? Irmãos? Cachorros? E a existência dele foi se desenrolando diante dos meus olhos, só acordei quando um carro buzinou ruidosamente para mim, assinalando que eu não estava mais ali. E aí voltei para a realidade. E então, começou a chover.

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