22 de mar. de 2007

A FORÇA DO HÁBITO


O hábito torna belo o erro.

Christian Fürchtegott Gellert

I
Gente comum comumente não se importa
com gente comum.
E vice-versa.
Gente comum acha fora do comum
que achem fora do comum.
É que já não é gente comum.
E vice-versa.

II
Que a tudo a gente se habitue,
a isso a gente se habitua.
É o que habitualmente se chama
um processo de aprendizagem.

III
É doloroso,
quando a dor de hábito não vem.
Como se cansa a mente esperta
Da própria esperteza!
O cara simples aí acha difícil por exemplo
ser um cara simples,
ao passo que aquela personalidade complexa
desfia suas dificuldades
como a beata o rosário.
Por toda parte esses eternos principiantes,
em estado terminal faz tempo.
Mesmo o ódio é um hábito do peito.

IV
Estamos habituados
ao que não tem precedentes.
Temos usucapião
do que não tem precedentes.
Um escravo de seus hábitos
topa na esquina do hábito
com um criminoso habitual.
Uma ocorrência inaudita.
A merda do hábito.
Os clássicos pegaram o hábito
de romanceá-la.

V
Suavemente o hábito da força repousa
na força do hábito.


Hans Magnus Enzensberger








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