16 de nov. de 2007

incomunicabilidade da comunicação


"O impasse da comunicação ou a incomunicabilidade da comunicação

As mensagens que nos martelavam através da mídia, há alguns anos, jazem, no momento, no esquecimento ou estão sendo questionadas. Lembro-me de alguns adágios: “quem não se comunica, se trumbica”, “o que você quer é levar vantagem”, “é dando que se recebe” e aqueloutro, referindo-se aos políticos e administradores da década de 50: “rouba, mas faz”.

Todas essas máximas, que tão bem conhecemos, são um formulário explícito dos anseios e valores de nossa sociedade, são frases armadas como símbolos de uma crise brasileira e, quem sabe, internacional a qual vem sendo usada de maneira despudorada, diria mesmo, aplaudida pela propaganda dentro da mídia, dos meios de comunicação. Esta variedade de imagens nos é servida de maneira intimista, na maioria das vezes adocicada, mesmo nos momentos mais difíceis da vivência social, como uma forma insidiosa, e ao mesmo tempo atroz, a fortalecer, através de pensamentos estereotipados, os atrativos de um mundo irreal, interesseiro, pragmático e absurdo... Senão vejamos: a começar pela televisão, a mais poderosa, penetrante e difundida das irmãs, é a grande manipuladora de opiniões.

Qualquer um dos canais que nos servem tem pontos em comum e suas características se assemelham nos chamados interesses de base, à exceção das pequenas variáveis do produto patrocinador.

Grosso modo, todas as empresas do ramo, a exemplo da TV, têm uma linha de comportamento predominantemente definida que é o disparate e, muitas vezes, o despropósito entre uma notícia e outra.

A breve aparição de imagens, som e movimento, em forma de clipes, são como que petardos (na maioria indolores e digestivos) que servem como estímulos ao apetite voraz de um mundo quase sempre subordinado à rotina, hierarquizado e socialmente injusto. Deste conflito, emerge a eficácia de uma “diversão” torporizante das propostas estimulantes para a aquisição e consumo de insumos produzidos com o fim de insuflar o consumo. A maioria das grandes cidades de hoje recebe dos meios de comunicação, com raras exceções, a mesma panacéia que, na grande maioria das vezes, estimula o prazer, os sentidos, a sensualidade e a sexualidade.

O grande público doméstico, crianças, velhos e empregados são como que permanentemente doutrinados para desenvolver a fome, a gula do produto cuja fisionomia sorridente, colorida e prazerosa lhe é atribuído; nesta grande salada, são incluídas sugestões de que o produto dá segurança, protege e, finalmente, estabiliza a angustiante rotina diária.

O discurso é simples, direto e eficaz. A estrutura do poder da massificação e da mídia de consumo, que é corporificado em empresas, indústrias, classes produtoras, políticos demagogos, etc., vale-se do esquema segundo o qual cada produto é o melhor, mais saboroso e gostoso, tem mais força cívica e é mais sábio. Lá estão disseminadas e muito bem protegidas as idéias mencionadas no início desta redação.

A fragmentação alucinada entre um grupo de imagens, a falta de continuidade de uma idéia ou de uma proposta a ser examinada têm a função de quebrar a concentração na leitura que deveria ter seus elementos concatenados e racionalizados. Na falta destes, o observador como que é levado a se postar passivamente, e de pôr à disposição sua psique (o indivíduo) utilizável para o consumo, ou seja, para adquirir, digerir, incorporar e eliminar progressivamente o produto. Essa seqüência repete- se de maneira contínua e mecânica.

A duração da comunicação e sua seqüência concatenada são de extrema importância, diria mesmo, quase definitiva para que exista uma troca de entendimento, um diálogo, um colóquio e, finalmente, uma comunicação. O que acontece, comumente, é o inverso: o indivíduo se torna um elemento passivo em frente à tela, entregue ao comando de imagens previamente selecionadas para submetê-lo passivamente ao seu controle. Isto é a televisão; não existe diálogo entre o espectador e o comunicador, o que existe é o chamado público de auditório que é, por sua vez, preparado para armar o circo em forma de espetáculo.

Lembro-me de uma frase, ouvida ainda na infância, e que vem se propagando cada vez de maneira mais contundente, que é cristalizada no refrão “time is money”. Esta idéia, tão ao gosto atual, bem representa um dos paradigmas do nosso tempo. Enquanto a mídia for um sistema unidirecional (notícia, diversão, show, da TV ao indivíduo), enquanto o homem permanecer um objeto passivo, frente a um sistema visual e sonoro de imagens e pequenas histórias, mais longo será o impasse da comunicação unidirecional. A incomunicabilidade existe por não existir o diálogo. De que forma? Como é que o cidadão pode exercer o seu direito de criticar um produto que o molesta, que o incomoda e cuja função reside apenas no lucro à indústria que o produz? A grande maioria dos produtos oferecidos ao consumidor é inócua, ineficiente e de pouca serventia à continuidade das nossas funções físicas, psíquicas e sociais.

Os assuntos são tratados pela mídia televisiva de maneira vulgar, e os problemas, abordados com extrema superficialidade. As notícias que permanecem em evidência são aquelas que criam impacto, a política e o esporte. Àqueles homens que analisam o mundo para os modernos, os pensadores do nosso século alertam para a grande crise no campo da ética contemporânea, para a resultante do comportamento das sociedades dominantes chamadas sociedade de consumo. Da mesma forma, grande parte dos filósofos contemporâneos sustenta a urgência na crítica da validade de uma releitura dos nossos meios de comunicação. As necessidades de lucro, a transitoriedade da vida humana estão exercendo um poder de compressão e de esmagamento do indivíduo ao ponto de os valores do iluminismo praticamente desaparecerem. A abordagem analítica de valores de ordem moral está marginalizada.
Comenta-se da lógica da comunicação já que a luta de classes pertence a uma memória histórica quase arquivada; o espaço público parece melhor, enquanto o espaço privado, ao invés de ganhar corpo, perde o poder de reflexão e crítica. Assim, deixamos de ganhar dimensão no espaço lúdico.

Tenho a sensação de que o homem começa a conscientizar-se de sua “fragilidade”, de sua curtíssima presença no espaço histórico face às limitações de nossas vidas e do seu encolhimento no espaço e no tempo. Talvez estejamos no limiar de uma nova fase histórica fazendo emergir um outro tipo de homem. É possível que estejamos, finalmente, soterrando o pânico da síndrome atômica do século XX ao nos aproximarmos do terceiro milênio.

O tempo é de ponderável importância tratando-se da oferta televisiva em forma de imagem para que o produto, através da promoção e da propaganda, seja assimilado pelo cidadão, digerido pelo homem. E esta intervalorização do tempo televisivo só faz tornar os meios de televisão e seus lucros, mais avassaladores e dominantes na sociedade em que vivemos."

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