31 de jan. de 2008

Fragmento de memórias esquecidas de uma mulher sem coração. (ponto de vista da sofredora)


Acho que foi na primavera, mas isso não faz diferença.
Aquele dia, aquela seqüência de dias em que meu coração foi
arrancado, posto numa caixinha pequena e apertada, lacrada com super-bond e muito bem escondida por aquele rapaz, que vez ou outra ia no seu esconderijo e pegava o coração, já fraco, para fazer requintadas torturas chinesas com o mesmo; aquele dia eu não esqueço. Renasci da morte ditatorial imposta por alguém, que, verdadeiramente, não me quis bem.
Parece memória de filme - flashs e lapsos. Pouco tempo se passou, mas já me parece uma outra existência. Outro filme, com outra equipe mas com um único diretor: eu. Voltei a ter o domínio de quem um dia eu fui. Melodrámatica e carregada de novas incertezas, me desmorenei pra me reconstruir, de novo.
E foi depois disso, depois que ele me tomou do peito o órgão responsável pela vida, que me dei conta do quão prescindível ele era; assim como o rapaz.
O oposto do que se esperava de alguém que perde o coração, aconteceu.
Sem saber, esse rapaz, pensando em morte, celebrou a vida. Graças ao seu ato impulsivo e carregado de más- intenções, consegui me livrar do que mais me maltratava, angustiava e afligia- aquele maldito que me foi arrancado do peito.
Por isso não tenho raiva, nem rancor, nem amor, nem desdém, nem um sentimento qq, pq não sinto mais. Isso é pra os que possuem qq coisa que bate acelerada do lado esquerdo. Eu não. Nem sei. Mas me lembro como era qdo a gente sente essas coisas estranhas, qdo perdemos o controle e caímos na vala comum do universo romântico, ainda lembro. Me lembro sim. Lembro como se fosse um ente, não tão querido, que se foi. Assim me posiciono diante do meu arrancado coração. Nem sei mais o que foi feito com ele, se jogado no lixo, se guardado cuidadosamente, se moído e ingerido num ato de sadismo e desespero, num momento em que foi tomado por uma pequena consciência. Posso imaginar algumas tanta coisas, por puro exercício criativo, por mera curiosidade. Pq, pra mim, não faz diferença. Meu peito vazio é mais tranqüilo, abstrato e louco. Gosto bastante dessa realidade progressiva!
Ainda não tive oportunidade de agradecer aquele rapaz, talvez um dia eu o faça.
Talvez eu queira olhar bem dentro dos olhos do algoz que me feriu de morte, mas não me matou. Talvez eu tenha mesmo que fazer isso, como a noiva de Kill Bill, ou qq coisa semelhante.

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