31 de mar. de 2008

quase juízo final

Meu errante não fazer nada vive e se solta pela variedade
da noite.
A noite é uma festa longa e solitária.
Em meu coração secreto eu me justifico e celebro.
Testemunhei o mundo; confessei a estranheza do mundo.
Cantei o eterno: a clara lua volvedora e as faces que o amor
enseja.
Comemorei com versos a cidade que me cerca e os
arrabaldes que se apartam.
Disse assombro onde outros dizem apenas hábito.
Diante da canção dos tíbios, acendi minha voz em poentes.
Exaltei e cantei os antepassados de meu sangue e os
antepassados de meus sonhos.
Fui e sou.
Travei com palavras firmes meu sentimento que pode ter
se dissipado em ternura.
A lembrança de uma antiga vileza volta a meu coração.
Como o cavalo morto que a maré inflige à praia, volta a
meu coração.
Ainda estão a meu lado, no entanto, as ruas e a lua.
A água continua sendo doce em minha boca e as estrofes
não me negam sua graça.
Sinto o pavor da beleza; quem se atreverá a condenar-me
se essa grande lua de minha solidão me perdoa?

(Jorge Luis Borges)

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