31 de mar. de 2008

sábados

Lá fora há um ocaso, jóia escura
engastada no tempo,
e a profunda cidade cega
de homens que não te viram.
A tarde cala ou canta.
Alguém descrucifica os anseios
cravados no piano.
Sempre, a profusão de tua beleza.
* * *
Apesar de teu desamor
tua beleza
prodigaliza seu milagre pelo tempo.
Em ti está a ventura
como na folha nova a primavera.
Não sou quase ninguém,
sou tão-só esse anseio
que se perde na tarde.
Em ti está o deleite
como estás nas espadas a crueldade.
* * *

Agravando o gradil está a noite.
Na sala austera
buscam-se como cegos nossas duas solidões.
Sobrevive à tarde
a gloriosa brancura de tua carne.
Em nosso amor há um desalento
que se parece à alma.

* * *
Tu
que ontem eras só toda a beleza
és também todo o amor, agora.

(Borges)

Um comentário:

Francine Galiano Pinto disse...

De uns dias para cá tenho notado a curiosa e inquietante presença de grafites quebrados em cima de minha cama. Estranho... Não uso lapiseira por ali. Em uma rápida análise pude constatar que realmente não eram grafites, pois com um leve sopro e eles voaram longe. E os danadinhos são deixados em lugar marcado. Só não os encontro quando quando passo o dia em meu quarto, na maravilhosa máquina de fazer esquecer, o tal pc. Pesquisando no google nada achei, essa meleca de ferramenta de de busca que só busca m***, bem, na minha situação nem mesmo isso... Engraçado, quando quase me permiti jogar a praga eletrônica pela janela, cheguei aqui!
Gostei do que li, muitas ambivalências, com as quais eu vivo constantemente. Senti muitas coisas em comum com você, seja lá quem você for hoje... :) Tenho um tipo de sexto sentido, parece-me que sei reconhecer almas marcadas, assim como a minha, sinto uma ligação imediata com a pessoa... Somos vítimas e guerreiros ao mesmo tempo... hora enxergando uma ou outra cor, ou somente cinza... sensação de que paredes nos envolvem por todos os lados deixando espaço apenas para, de pé, nos escorarmos... a dor e a solidão devoram sem misericórdia... a esperança se vai...quando chega o ponto em que o desespero chega ao nível limite, as coisas parecem caminhar feito um bebê dando seu primeiro passo. As paredes lentamente se retiram, as cores ameaçam aparecer...o brilho do sol queima os olhos acostumados com as sombras, fazendo-se entender que o mundo ainda não acabou.
Doutras vezes as cores nos são tão intensas, brilhantes, cheias de energia... No começo tudo é lindo, mil projetos iniciados (todos de um só vez), a timidez vai embora, a pessoa do outro lado do espelho é estonteantemente arrasadora. Durmir?! Que coisa sem propósito. A sensação de invensibilidade apodera-se da mente... Mas então as coisas fogem do controle...o sonho se mistura com a realidade, perdendo-se completamente a inibição. O pensamento corre na velocidade de um raio. Seus interesses e ações se esgotam. Fechando o ciclo, as cores se apagam novamente.

É... assim a vida passa, e, permanecendo aqui, nos tornamos guerreiros.
Eu tenho meu segredo, podem me chamar de trapaceadora, mas eu preciso, não conseguiria suportar esse fardo sem uma base segura para me firmar...

***A chata aqui já terminou de viajar nas próprias verdades...
Obrigada por ler!