24 de nov. de 2008

era uma vez uma historinha

A luz vermelha que piscava na parte superior do avião atingia a retina desprevenida. No entanto, não era a luz que incomodava tão profundamente, mas sim a sensação de urgência que trazia. Praticamente duzentas pessoas juntas, de acordo, movendo-se para um mesmo destino, e mil possibilidades a surgir diante de cada novo passo, ao sair daquela aeronave. Era disso que tinha medo, temia secretamente a quantidade indistinta de possibilidades. Adorava observar, atordoada, os encontros e desencontros da vida. E ficava por horas pensando em cada um deles. Cléo dizia que as palavras limitavam, certas coisas não podiam, nem deviam ser ditas, porque , a partir de então, ganhavam outro tipo de força; ou mesmo, perdiam... Gostava dos cuidados da Cléo, mas sabia-se diferente, sabia-se inequivocamente descuidada, leviana em tais aspectos. E nos reflexos das pessoas que caminhavam com idéias vagas e obstinadas na cabeça, observava a si, sua própria existência no mundo. Sentia-se quase realizada, quase bem. Felicidade seria uma outra coisa, nunca foi dessas de acreditar em tais palavras. Apreciava muito o silêncio, a penumbra, as velas, os rituais, a delicadeza. Toda essa agilidade instantânea do meio urbano a tiravam do eixo, desaguava em crises e pequenos surtos acumulados. Achava que devia fazer análise, mas não tinha certeza.
Apreciava a incerteza, de fato. Mas, em situações ocasionais e específicas, sentia uma brusca necessidade de um pingo, nem que fosse, da tal certeza das coisas. Sonhos ocupavam um espaço engraçado em sua vida. Eram como oráculos cotidianos. Contatos diretos e direcionados com o universo. Não sabia ao certo como agir diante, ou após eles, mas mexiam-lhe a cabeça, bagunçavam algumas convicções.
Queria, em certos momentos, casar. Em outros, a solidão era a melhor das companhias. Tudo era muito instável e não tinha nenhuma verdade sequer. Tinha um moço que trazia-lhe inquietações, doces inquietações...
Ansiava por vê-lo passar ao largo, sentia que isso não seria muito distante. A não ser que o destino e as mil possibilidades que tanto temia, lhe arrancassem da vida esta.
Achava que não, mas, como de costume, não tinha certeza.
Uma outra luz piscava, veio substituir a anterior. O ciclo das coisas, os passos reticentes das pessoas seguindo um caminho... e os mesmos, mas distintos passos...
passam, passavam, a passos largos das passadas dos passeios do destino...
destino, fatalidade, inexorabilidade.
Não cria nem em tanto, nem em tão pouco. Só no vento, só no vento.
Pousou a borboleta na casa amarela, era madrugada, a dama da noite exalava...
expectativas ao léu.
Costumava, às vezes, se espraiar na esperança.
Não, não era tão crédula.
Perguntava ao I ching se seria isso.
Continuava aguardando a resposta.

3 comentários:

Anônimo disse...

Nossa!muito bacana!
Acho que também vivo desaguando em crises e pequenos surtos acumulados.

Anônimo disse...

Pois ora...

Não poderia estar rindo agora, sabia? Talvez sinto-me assim por ter lido que procurou saber quem éra o tal moço da foto. Na verdade, talvez posso até imaginar o que encontraste.
Sinto-me exposto. Não deveria ser assim. Apenas era algo que fiz para que retribuisse a sua indentidade virtual.
Teria que estar com uma expressão séria aqui, na verdade, poucos são os que conseguem me ver sorrindo. Porém isso tirou a minha rotina, e agora nem mais "fingir" que estou redigindo um texto sério sobre a Crise no Equador, cujo prazo é para daqui há duas horas, eu não posso mais. Realmente vc tirou a minha máscara... e agora tenho que criar outras desculpas para prolongar meus prazos. Porém, cá entre nós, a minha companheira de trabalho também não esta nem aí com os tais prazos de hoje a tarde, vejo-a nitidamente, também tentado esconder por tras de uma expressão séria, o seu jogo de pacência estampado em sua tela.

Pois veja... vegetariana, heim...
Confesso que tenho algumas atividades rotineiras voltadas a divulgação e manutenção não da dieta em si, mas da parte ética no que diz respeito ao trato com o meio ambiente.

Muçulmano? Como é isso?
Na verdade, não sei o que dizer sobre. Talvez se eu fosse Hare Krishna e vc me perguntasse "como é isso?" eu tbm não saberia dizer... Mas talvez... isso é natural, e normal, mesmo sabendo claramente das tendências errôneas e midiáticas divulgadas ao longo de todo mundo ocidental.
Sem dúvidas é uma religião que institui algumas práticas e posturas distintas das demais monoteístas existentes (judaísmo e cristianismo). Porém, muitas das coisas incorporadas em nossa cultura, foi trazido do conhecimento islâmico, inclusive, bastante divulgado pela Bahia, berço do Islam no Brasil. Afinal, lá foram registrados os primeiros indicios da chegado do Islam no Brasil, tendo sido os escravos africanos, os que primeiro chegaram a divulgar a mensagem do Islam no "novo mundo". (inclusive, muito dessas outras seitas, como o Candomble, agregaram muito do Islam e sua mensagem, justamente por ter se criado junto, dentro dos mesmos navios... dentro dos mesmos porões.


Achou eu ser outra pessoa?
Suspeitei algumas vezes, devido à proximidade com que falava.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.