Sabe,
Sacerdotisa, às vezes a gente perde a habilidade com as palavras. Acho que isso acontece qdo a gente perde os olhos-vivos e passa a ter olhos-objetivos. Vc não sabe, nem poderia, mas esse fim de semana vivi uma experiência muito forte. Muito morte.
Morte e... renascimento.
Para além de qualquer palavra.
Além.
E, no entanto, estou aqui tentando falar o impronunciável; só pra dividir com vc como me senti. Catarse, medo, superação, força, fraqueza, reação, passagem, magia.
Palavras que dizem alguma coisa, mas ainda deixam tanto ou tudo por dizer.
Sabe, Sacerdotisa, não foi delicada a experiência. Ela foi bruta, foi esmagadora, dolorida, corrosiva, voraz. E fui eu e foram eles. Todos como num mágico musical que só terminou com o grito da ave entoado ao sentar-me à mesa; cingindo, novamente, as realidades antes unificadas.
A coluna foi partida ao meio. Qualquer nó: dissolvido.
E agora que tudo passou, ficam as lembranças e a tentativa de reconstituir as imagens fortes que vieram, que viveram.
Tudo em algumas horas. De pronto. De imediato. Estive aberta, estive entregue, estive mais vulnerável que um recém-nascido e saiba que não exagero, nem metaforizo: morri. Morri e vivi.
Agora vejo: não pode mesmo haver incômodo com a incerteza.
Porquanto que a única certeza é a incerteza.
O único caminho é o que é desejado.
A única verdade é a mentira.
Tento seguir, mesmo torto, meu caminhar vivo e cheio de deslizes, embora sem mais vontades de acertar - isso não importa mais.
Parece estranho de tão óbvias as conclusões, mas sabe que a obviedade é a coisa mais difícil de se ver?
é...
alguns abraços ainda inábeis com as palavras.
e as coisas continuam se desconstruindo a todo o tempo o tempo todo.
Zilá Joana.
5 comentários:
Um misto de tudo um pouco...
Tão vasta que chega a perder-se ao vento.
Como parte, sinto.
Também estive nas Brumas.
Nos momentos de ser, pouco nos resta a falar... as palavras sobram, ou ocupam lugares pequenos para coisas grandes demais...
Sendo assim convoco Clarice L. que sabiamente bruxa e fada assenta cada intensidade e estranhamentos em espaços quase humanos de compreensão.
"É que por enquanto a metarmofose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas."
e...
" Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento. Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Eu sou uma pergunta."
Admiro-te muito companheira de viajem! Sinto me agradecida por haver compartilhado um momento tão especial.
Estamos sempre procurando detalhes escondidos, a svezes inexistentes.
Que o obvio se torna pequeno demais para o nosso campo de visão.
Os olhos ficam desacostumados.
Sabe, sacerdotisa,
cada vez que eu venho aqui,
e você me hipnotiza,
eu amo mais essa sua essência de flor.
Saudades
como são hábeis suas palavras inábeis: nossas infinitas mortes, nosso despedaçar, tudo isso é tão incômodo e tão humano.
A morte é um processo de profunda abstração. Um mergulho, um piscar de olhos e o infinito. Mas nada nunca morre realmente, só transforma.
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