Minha Jaia,
esta carta é para você, poderia ser como muitas outras em que escrevi tudo na cabeça -e vc nem sabe quantos diálogos já tivemos - mas, como não dei corpo em tempo, se resvalaram em outras correspondências, outras vidas, outras veias...
quando a gente diz SEMPRE, quando a gente diz NUNCA...
a gente sabe o que diz?
não sei, noite passada sonhei com cachorros que me intimidavam com suas bocas grandes e largas, latidos, rosnadas, mordidas - e ando querendo adotar um cachorro...
No entanto, ontem, começava assim a carta:
as coisas não têm que fazer sentido, mas, às vezes, fazem.
Tinha a cara da mãe, mas o olhar do pai, o pai que era festejado no mesmo dia, coincidência feliz da família, que, certamente, não esperava. era, pelo pai, a mais querida dos 3 ou 4 filhos daquele clã. Era a menina dos seus olhos, aquele verdejante espaço em que habitava seu coração. Não vá, filha, não vá, não mergulhe no fundo, fique aqui no rasinho, fique sempre sob o olhar do papai. E a menina amava tão profundamente o pai, tão profundamente a liberdade e a vontade de ir se entregar ao mar... a voz ecoava lá na terra: volte, Jaia, volte.
e toda vez que ela voltava, algum bicho crescia dentro dela, bicho monstro selvagem, e os cabelos ficavam mais alvoroçados e o olhar inclinado por detrás da juba felina fitando intensamente seu pai, seu amor, seu dono, seu carrasco.
era fera enjaulada, fera que se tenta domesticar com carne fresca e sangrenta.
era o amor.
era ela, a menina escorpião.
essa carta não tem fim... é só meio, o meio, um meio, a mistura...
e hoje penso que os cahorros têm muitos dentes, e nós temos muitas mordaças...
e medo. temos medo.
me disseram que tivesse um tucano ou arara, parece com você essas excentricidades...
mas não me parece certo ter um tucano ou arara num apartamento de 2 quartos, do alto da torre...
e são tantas as incertezas da vida, não é Jaia?
e o agora parece estar todo nesse espaço-tempo das entrelinhas, entrepalavras, entreletras - onde nos fazemos reis e rainhas, mendigos, bobos da corte.
quando pequena, gostava de arrancar a cabeça das bonecas e dos poneis e jogar no parapeito da janela. alguém sempre pulava e ia lá pegar, nunca deixavam uma cabeça sequer para que aprendesse a não mais fazer isso... não deixavam, nunca...
e sempre fazia a mesma coisa...
até que o sempre desapareceu e o nunca, morreu.
pulou ela mesma (eu) a janela.
e
termino sem pé,
nem cabeça.
saudade
2 comentários:
E então eu me encanto com as suas histórias de mim. Tenho histórias pra vc.Só não sei bem de quem.
Realmente as coisas não têm que ter sentido, mas as vezes têm.
Estranho como não suportamos ver cabeças fora dos pés... corremos, buscamos, endireitamos ao máximo possível as incertezas e tememos.
Também desejo ser mais livre. Também caio de cabeça. Me atiro, melhor dizendo. E pra nunca ou sempre perder entremeios.... continuo nas palavras de eira e beira... cantando seus versos que me vêm como musicas.... aveludadas.... puídas.... intensas.
Do Tempo quero tudo que ele puder me dar. Que eu puder arrancar... Nem tudo que ganha. Às vezes se toma. Como tomo a ti num cálice transbordante de cor.
Obrigada, querida.
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