
O canto dos pássaros misturado ao vai-e-vem das ondas do mar e aos barulhos dos motores de automóveis passando velozes no asfalto sobem sorrateiros pela varanda do 5° andar. Submergem neste cotidiano inepto, incompleto, descrente. Clamam... clamam ao seu modo, de algum jeito estranho e sinuoso, como uma vertiginosa desesperança alegre de quem já se foi.
Sempre cri demais, na meninice colecionava fatos esdrúxulos e sobrenaturais. Hoje, como que desgastada, a fé foi-se embora. Não sei se algo melhor ficou no lugar, talvez uma incrível percepção da realidade, talvez uma visão neurótica e destorcida das pessoas e da rotina.
As ondas continuam a quebrar lá fora, onde pessoas passam vagarosas e apressadas, cada uma num ritmo, cada qual em seu compasso. Do outro lado alguém lava louças velhas, esfrega com intensidade toda a sujeira produzida por nós. A máquina de lavar também limpa. O mundo requer limpeza. A assepsia está presente, invade os poros, toma conta dos mais recônditos cantos da mente humana. Mesmo assim, insisto em gostar da sujeira, da poeira, dos gatos, da alergia.
Queria tanto um canto onde eu pudesse voar de qualquer jeito, onde soltasse toda essa mescla de um sem-número de coisas contidas aqui dentro - extravasar: viver; não empurrar.
As pessoas andam muito preocupadas e com medo, medo de tudo. O meu medo é impalpável, ou eu que não sei localizá-lo. Temo o sobrenatural, o inumano, o intangível. Temeria eu a morte? Não, acho que não. Temo a vida. A velocidade. O tempo. Os fatos e suas conseqüências. Especialmente as conseqüências.
Queria querubins barrocos a soprarem belas canções ao pé do ouvido. Fadinhas e gnomos cantando e dançando com faunos, com Pã, e tantas outras fantasias num sincretismo alucinógeno.
Ó deus, o que será que é? As perguntas tendem a libertar a confusão das não-respostas. A pior pergunta é aquela que não tem resposta. Seria tudo muito simples se pra tudo existisse uma resposta. A segurança ainda é o mais difícil percalço. A vulnerabilidade, ao contrário do que é, devia ser outra coisa, devia ser aceita, sorvida, desejada, esperada.
A água cai na panela. Fria e abundante. Cheia de outras intenções. Aquela água vai virar café. E eu, vou virar o quê? Talvez um suco, talvez um gelo, quem sabe um chá ou um drink? Já sei do que tenho medo. Sofro pelas possibilidades. Definitivamente elas me angustiam. E se eu fizesse isso e não aquilo? Como tudo sucederia?
Ah, uma canção sussurrada... como é belo nos lábios dos que crêem.
2 comentários:
Zilá........Eu não tenho palavras....Além de ser um texto maravilhoso em forma e conteúdo, não sei como podemos ser tãaaaaaaaaaaaaaaaooooooooo parecidas!!!!Os questionamentos e todo o resto são sincronia pura!!!!! Que doido isso amiga!!!!!!!!!!Aaaaaaaaaammo o que vc escreve e como escreve...E sempre vou dizer: COM UMA CORAGEM QUE EU NÃO TENHO!!!! Sinto igual, mas camuflo isso em poesia, sou neurótica demais para escancarar e não me senir vigiada...E vc simplesmente o faz! Por isso eu disse que vc é mais dionisíaca!.........Se me permite, adoro o jeito com que vc nos traduz!
INCONFESSO DESEJO
"Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo ."
(DRUMMOND
Postar um comentário