8 de jan. de 2008

Não ser


Sabe o que é, meu senhor?
É que eu ando mesmo é na contra-mão.
Eu vou sempre pelo outro lado,
desafiando o possível e fazendo
do impossível um treco raro.
Piso na casca da banana,
ando de mãos dadas com o diabo,
penso no impensável e gozo com o
ingozável.
Gosto do caracol, converso com as baratas,
conservo cabelos cortados.
Jogo fora fotos e cartas.
Deleto arquivos importantes,
guardo as baboseiras, brinco com as lagartas.
Gosto de Joanas, Chicos e flores.
Amo as Bárbaras, as Cleópatras, os
Espremedores de frutas e as Epifanias
distantes, alguns amores.
Detesto quem não sabe de saber não saber.
E vivo devagar, um dia de cada lado.
Falo a língua dos gatos e vôo com os
passarinhos.
Mujo com as vacas e deito com os porcos.
Viajo com centopéia e arranco dente siso.
Percebi que muita gente é como eu,
sem juízo.
Escrevo em diários, mando mensagens,
grito ao vento.
Em gosto de cachecol, aprecio o pensamento.
Descubro em mim o que não poderia sozinho,
mais um gole de vinho.
Sou eu, eu muito mais comigo, muito menos
sem mim.
Andarilho do espaço, vivo o desassossego
cotidiano.
Conheço o rabo da macaca e gosto da gargalhada
do curinga.
Não sou homem, nem mulher.
Nem espada, nem faca.
Sou o mato ressecado, o veado dando o rabo.
Espanto o certo, cultivo o tosco e grito em giz.
Detesto geléia e qualquer coisa que se dê nome.
Sou filha do lobisomem, neta do Sol.
Ando na corda-bamba de quatro.
Lato pros doutores e faço análise com os
ratos.
Meus sentidos são retrô, gosto da psicodelia
inerente no robô.
Sabe o que é, meu doutor?
Não sou fanfarrão em desacato.
Viro a casaca e torço o pescoço.
O que pensam de mim, desfaço.
Só ajo no interno de externo repulsado.
Me apaixono por traidores, me identifico com
espiões, tenho intimidade com vidas-duplas e
não sou branca de neve sem anões.

Um comentário:

Vini, Vi e Venci disse...

Você cria imagens incríveis, ler o que vc escreve é um deleite.

"Detesto geléia e qualquer coisa que se dê nome."

Confusão e subversão, inconstância e criatividade...