
A dama carnavalesca passeava faceira pela avenida cheia.
Cheia de olhos cobiçosos em cima dela, comendo-a à distância.
Naquela noite, após muito samba no pé, a moça já não queria parar de dançar.
Era Clara, Clara que a regia.
Entre pernas, braços, odores, suores, olhares e toques,
ela desviava a atenção.
E seguia, reta, esguia, a sambar numa cadência transcendental, maliciosa.
Alguns diziam que não era de lá, devia ser mesmo de outro lugar, talvez gringa, mas não, a senhorita tem o diabo nos quadris, olhe bem, olhe como ela samba! Só pode ser baiana, nem que seja de alma.
E o bafafá a acompanhava, mas ela não se dava conta, estava em transe, hipnotizada pelo
pulsar febril da música na madrugada quente.
A cada requebrado, a cada molejo, uma roda a cercava, quem estava por perto seguia imitando os passos da garota. Muito bela, dessas belezas greco-romanas. Uma mescla bem feita de classicismo e pós-modernidade. E os rapazes ficavam à espreita. Se ela estivesse só, seria, muito provavelmente, presa fácil, posto que não se dava conta da onda de desejo que despertava no seu balançar. Talvez soubesse, sim.
Cada gota de suor sua seria uma dor extravasada, uma vingança de um bem-amado, um capricho de querer se divertir. Apesar do rosto clássico, quase de boneca, era mesmo endiabrada. Não se deixe enganar, a moça é ardilosa, dissimulada e perigosa.
É daquelas que tem vários amantes, e trata a todos com certo desdém. E essa moça danada não quer nada com nada. Fica por aí com seu gingado, jogando pra todos os lados tudo de bom que deus lhe deu. Amaldiçoando a carne com o pecado de todo o dia, cada dia um novo pecado. Ela era ambiciosa, falsa e ordinária, quase um desses hits funks cariocas. Mas sim, a moça tinha muitas qualidades além do requebrado traiçoeiro. Ela colecionava frases, brincava de palavra, colhia no chão, no mar, no vento. Tudo pra ela vivia lá dentro, dentro de si, quase nunca saía. Transmutava borboleta em amor, amor em morar, morar em amora, doce em alface, cachorro em menino, sorvete em papel, vermelho em elefante, disco em perfume. Era alquimista, mágica e misteriosa. E não tinha espaço pras coisas de fora de si. Vivia dentro. Dentro mesmo. Alguns invejosos a tachavam louca, problemática, incerta. E como? como podemos falar isso de um ser sem nome, sem carne, sem peso, sem cor? Essa moça é tão diferente que se faz imaginária, que vive a permear os pensamentos dos rapazes e das garotas. Mas ninguém pode provar que ela exista mesmo. Ela some, desaparece e se reinventa. Discípula de Castañeda. Ninguém sabe de suas origens, pra onde vai, de onde vem, como, nem porquê. Por isso ela aparece nas épocas de carnavais. Ela celebra o lúdico, e isso a faz ganhar forma. Só quando o ambiente é cheio de desejo, magia, intensidade e gozo é que temos a chance de ver a dama carnavalesca. E não se engane, à primeira vista você não a reconhece, ela não se mostra pra todos, só se exibe pra quem tem idílio no peito. Pra quem não tem, será apenas uma moça, como outra qualquer. Não adianta forçar as vistas num afã de reconhecê-la, quando a vir, saberá:
esta é a dama carnavalesca.
Quando ela acolhe algum em dias chuvosos ou quentes, o escolhido, ele será tratado com o mesmo carinho de um antigo amor, ela trata a todos da mesma forma. É terna,
meiga, gentil, carinhosa. Só não deixe, jovem insensato, que a dama carnavalesca te mostre a outra face, esta não é agradável, um misto de Kahli com a fúria de Luz del Fuego. Podes calcular? Por isso, pra quem não a conhece, é sempre bom levar o coração
com despropósitos, vazio e desprevenido. Aí ela é como mel, ou qualquer coisa semelhante.
A lenda popular fala sobre ela:
"Não tente a prender, não tente a pegar,
ela é borboleta, seu moço.
Não se pode tocar.
Não se pode mandar.
Ela faz o que quer,
ela é a mulher.
É ela quem diz,
é ela quem quis."
Dama carnavalesca, nos dê a chance de revê-la num próximo ano,
num novo gozo, no desassossego do nosso coração.
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