O barulho da piaçaba velha se esfregando no chão, a poeira a subir, ligeira.
Promessa de uma vida lá na frente.
O que é sagrado?
O olhar curioso dos gatos a perambular pelos cômodos,
quanta cumplicidade!
O arrastar de cadeiras,
e aquelas lágrimas jorradas no escuro.
Livros espalhados costurando memórias, sorvendo desejo e fantasia.
Joana foi passear e já não volta mais.
O som do mar. Toda a magia e mistério do mar.
Perdão, Carlos.
O que há de se fazer se a crueldade é imperiosa?
Noite passada não entendi sua saída.
Foi difícil acordar e perceber que vc tinha ido.
Não te peço nada, não tenho esse direito.
Mas não se magoe demais, por favor.
O que é sagrado?
Aquela estória que criaram, acha isso sagrado?
A cama do leito nupcial? Talvez isso seja sagrado.
O amor que extrapola qualquer razão:
Isso deve ser sagrado.
Não sei se amo, Carlos.
Brigaram comigo por usar a cama:
"Vc não deve trazer aqui seus amantes! Temos que ter respeito!"
Um ato de amor, a união de um casal.
Isso, acaso, não é sagrado?
Não faça perguntas demais, por favor.
Não tome a apatia por frieza,
não é frieza o que vês em meus olhos.
É solidão.
Um dia colherei aquelas flores mais uma vez.
E hei de me banhar no rio,
espantar a preguiça na cachoeira.
Joana voltará, eu creio.
O gás-carbônico daqui me entorpece,
e o petróleo-conflito me anestesia.
Qualquer queixa seria bobagem.
Me mostre aquela carta, por favor.
Preciso saber o que escrevestes naquelas
quatro páginas embriagadas de esperança.
A água corre pro ralo, leva com ela
qualquer vestígio, toda a
suposta sujeira
que produzimos.
Daqui desse quarto sinto o perfume das fezes
dos gatos.
Há dois dias não são limpas.
Esse esquecimento, uma amnésia seletiva
inconsciente que reverbera em palavras
tolas, toscas, ao vento.
GRITO.
CLAMO.
NÃO CHAMO MAIS.
Tartamudeio agora.
Será que é isso?
Isso mesmo?
Uma leve brisa em meu rosto anuncia.
Até mais,
naquele quando cravejado de porquês,
no país frio, na echarpe, no livro e
no cafuné...
Nada se perde.
Lavoisier?
O tédio se instaura nessas palavras tão presas de si.
Mais uma vez:
me perdôo por isso,
por aquilo,
e por vc.
Bobagem, Carlinho,
tudo é criação nossa de todo dia.
2 comentários:
Ah, que denso! Me lembrou a na Cristina, sabia? Traços dela...A li ontem, por falar nisso. o texto corre solto, como uma conversa despretenciosa, mas repleto de densidade nas linhas e entrelinhas...
Obrigada pelos cometários, sempre tão cheios de furor.
beijos moça linda do sorriso belo.
A Ana*, quis dizer...
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