18 de fev. de 2009

As reticências e outras pontuações

Naquele eco de "quases", se deu conta de que existia hipoteticamente.
Na iminência de um "se", na leveza descompromissada de um "talvez", seguia seus dias.
O iniciar da tarde era brilhante, daqueles clarões de ofuscar a vista, de dilacerar o ego.
E fazia tempo que não sentia tanta angústia, em oposição ao dia bonito de praia.
Pareceu-lhe, de repente, que tudo estava trocado: o dia, a angústia, a vida, a morte.

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SEQUENCIA 1- ENTARDECER- SONHO- SALA DE MARIA- INT.

Barulho de metal batendo no chão. Maria deitada no sofá da sala, olhos fixos no teto, como se estivesse em transe profundo. Na mesa atrás do sofá, um pote de sorvete. No chão, uma colher de sorvete cercada por três gatos curiosos que cheiram e lambem o conteúdo esparramado. Um bebê vem engatinhando na direção da bagunça, puxa um gato pelo rabo, que corre fugindo dali e passa pelo jabuti, que vai na direção dos outros.

VOZ OVER (LOC. MASCULINO):
Se não fosse a colher a escorregar do pote, semi-vazio, de sorvete, caindo da mesa ao chão e fazendo, por si só, suficiente sujeira e estrondo, talvez nunca saísse daquele transe repentino; como se não bastasse, viriam os gatos, o jabuti, o bebê, todos juntos a lambuzar-se - e ela gritava em devaneio atordoado, percebendo, enfim, o caos imanente.

Maria acorda do transe e levanta, atormentada, do sofá da sala. Ao perceber a bagunça, grita, dando o primeiro passo. Não consegue e cai; fica estirada no chão, entrando num novo transe desesperado, porém mudo. Os bichos e o bebê não a ouvem, nem vêem. Ela parece começar uma convulsão misturada a uma catatonia. Corte descontínuo. Já é noite. Maria, em posição fetal, com a cabeça no colo de um anão. Não há nada além deles na sala, que está totalmente vazia.

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Aquela abulia filha da puta já não seria a mesma depois das invenções esquizóides do cotidiano híbrido, mas cheio de si. Era, apenas, mais uma tentativa de dar certo.
Como do costume grego de terminar em idílica festa.
O que ainda resta de realidade a ser incorporada por toda essa merda de real?
A beleza do inalcançável, o intangível momento.
Seguiria, perseguindo o que fosse de perseguir; toda essa bobagem estúpida de reconhecimento.
Pensando bem, de verdade mesmo, no fim das contas... só queria se dar ao luxo de uma rede, esticada entre uma estaca e outra, na beira do rio, dessas que a gente balança sem se dar conta do tempo, quase como se estivéssemos parados entre um segundo e outro; ali, estáticos, enganando toda sorte de minutos, segundos, frações fracionadas...
E a simbologia do instante, por mais imbecil que fosse, ainda a atingia de cheio -
um tiro, bem no meio da testa. Haveria, então, outra forma?
Não se sabe,
nem disso,
nem de mais nada.
Era uma mudança, de qualquer jeito, a vida que levava.
O caminhão, com todas as caixas e o resto das coisas, chegaria no sábado de carnaval- ótimo!
Realmente não estava nem aí pra o que quer que fosse, quanto mais essa coisa de festa.
Que chegasse em inapropriada hora: seria, de fato, bem-vindo.
Uma nova realidade, voltávamos ao que éramos...
Há-há-há-há!
Qualquer inadvertido ato faria um estrondo fabuloso ali ao lado: cômodo vazio de êxtase maduro.

Espere, ouça, se aquiete um pouco pra que entenda - enxergue da tua cadeira rotativa e de rodas- o desassossego!
Gire, em torno de toda tua empáfia, e grite, pra quem quiser ouvir:
"Eu consegui!"


Não era isso?

Não era isso que você queria?

Então, toma!
Toma o que é teu e faz dele o que melhor for!

- belo, belo.

Que tua intuição lhe assegure mais alguma coisa além dessa demonstração impulsiva de afeto...
Experimente se aprofundar...
Mas tenha cuidado...
talvez afunde no lago de ilusões cativas...
E, se isso ocorrer, olhe para cima, ou para o lado, ou ainda sacuda bem os braços e grite, talvez alguém vá te salvar, mas não quem esperas, talvez aquele que anda do outro lado...

do outro lado do espelho...

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