15 de fev. de 2009

Quebra-cabeças onírico

Comecei pela mesa.
As peças tentam se encaixar, num diálogo de costura, que anseia pela agulha.
Eu paro no chão.
Meus pés dormentes apontam direções longínquas, díspares, desconexas,
desconhecidas - um charme de edifícios gloriosos.
Na manhã bonita, de dia-praia, observo, da varanda: o vai e vem, o chega, o vai embora, o mergulha, o caldo, a areia, as ondas, os pés descalços, as sacolas, os carros, cachorros, barracas, bancas, bebidas, as comidas - um dia pode ser repleto na praia.
Minha mão fede a alguma coisa azeda, acho que foi peixe de congelador. Que difícil o destino do peixe: de água solta e viva a gelo preso e morto.
Minha bexiga enche e eu não posso parar o filme, não quero!
Ela solta a perna postiça e deixa embaixo da obra.
Nada tem fim.
Nem o filme que acabou.
O copo vazio espera a mão e o líquido.
Torna a ficar vazio e esperar a mão e o líquido.
A dor vem e vai embora, assim como as outras todas coisas do estado vida.
Um suspiro e uma metáfora.
A vida como metáfora da morte.
Estados soltos; momentos, apenas.
Nada é de se prever sem cálculos.
Nada anda sem pernas.
Moça e flores na redonda bola,
composições que surgem de mãos experientes que já carregaram muito peso
e agora esperam o momento de despejar por sobre.
Um olhar atento não capta tudo- mesmo que queira- ainda há muito: além-tudo-o-mais e um pouco.
O cortejar e o cortejo: dois atos distintos e semelhantes,
humanos e tradicionais.
Viva o bicho sagrado do sonho de quebra-cabeças que tive inda anteontem.
Eu acordei, mas já-já...
e o sono vem.
Vem.
Embaralhei as peças que se encaixavam felizes por formarem, juntas, uma outra coisa.
Separadas já não se reconhecem, estão, de longe se olhando.
Pressentem que já estiveram próximas,
mas não podem - ter certeza- de:
Nada!
E tudo começa de novo...
as mãos e as peças,
um jogo esquivo e oscilante,
sempre a se reiniciar.
Ou quase.

2 comentários:

Julio Domingos disse...

ZJ,
Saiu do sonho ou tá tomando o q?
Além de onírico, pra quebrar a cabeça. Não, não se drogue, Zilá, ainda há esperança, afinal quem irá criar nossas crianças... Muitos risos.

Anônimo disse...

quase...
ou quase...