22 de jul. de 2009

Contraditória

E curvou-se.
Virou a esquina de si mesma.
Pra já, então, encontrar o rabo, ou, o outro lado que estava por demais escondido.
Onde ando eu?
Por onde vão meus tantos eus?
Se procurou. Se enfiou. Se adentrou. Se embrenhou. Se destrinchou. Se comeu e dormiu, se acordou e olhou nos fundos olhos prateados de lua safada e virginal. Cheia de fases.
Porque, com ela, era tudo contraditório. Tudo fazia parte da mesma coisa. O certo e o errado, o bom e o mau, o bem e o cruel, o gostoso e o amargo. Mas ainda mais. Cada parcela, cada pequenina parte, estava contida e preenchida de uma outra e ainda umas outras e sempre e mais: outras e outras. Não era dualista, muito menos maniqueísta (valha-me deus, nossa senhora!) embora, assumidamente, contraditória.
Fazia, nessa contradição, sua morada. E sabia: lá, estaria só. Todos os outros são contraditórios; mas poucos assim querem se perceber. De qualquer forma, ela não tinha problemas com isso. Até sua contradição era contraditória. Algumas vezes, queria se encher de certezas- abondonava, sorrateira, suas dúvidas enraizadas com tanta profundidade, com tanto cuidado.
E, por vezes, saía do prumo. Sentia-se demasiadamente solta dentro de si, flutanado entre mundos curiosos e um tanto ensimesmados. Isso poderia prendê-la, retê-la em si mesma. Mas, de fato, não. Não acontecia. Todo período em que ela imergia pra dentro, era quando emergia, diversa. Fora de si, já não lidava do mesmo jeito com os outros. Sempre aprendia muito consigo mesma. Muito dos outros. Mas não era nada de se dizer, nada de se nominar. Era um tanto amorfa e abstrata essa experiência individual.
Ainda que fosse pra ser alguma coisa que se pudesse dizer, não diria. Porque não seria. Era de se sentir. De se tocar.
Mas não era nada de se dizer. Não, não era.
Era como uma erupção. Era apenas aquela sensação quente e inebriante se expandindo e trazendo calor e dor. E nada seguia como antes. Nem nas dúvidas tão certas, nem nas certezas tão duvidosas.
Só ela, ao querer dobrar suas próprias esquinas, se desdobrava - mais e mais - em si mesma.
Tão singularmente plural. Tão certamente incerta. Tão absolutamente contraditória.
Seguia ela, então, devota de si, em si.

Um comentário:

Carla disse...

tão contraditória, tão viva, tão forte!