31 de ago. de 2009

Das indulgências

Suor


Era descalço que ele vinha me pegar.
Me punha no colo e logo lia os dizeres dos primeiros anúncios da primavera.
Era inverno, outonávamos juntos por aí.
Eu, por vezes, subia no cangote dele.
Ele, por vezes, lambia meu clitóris.
Era verão.
E eu derretia.

O reflexo

Todo travesso tem travessia no travesseiro.
Meu nariz arrebitado,
meu queixo furado e o tesão acumulado em frente ao espelho.
Ah, Narciso...
Era Deus que me queria.
Mas eu sempre fiz charme.
Acabei na cama do diabo.

p.s.: e ele é quente!



Anal

Penteei o macaco.
E ele disse que era bom.
O macaco me comeu.
E eu disse:"aí, não!"


Busca


Já tinha um jacaré
a flor ao pé do ouvido.
Cantando margarida, saiu,
sequer vestido.
Por águas a navegar,
cruzou o Amazonas e o Nilo,
sozinho, a procurar, o amor:
tão perseguido.



Assalto


Sou assaltado de lembranças que não vivi.
Uma tarde friíssima, num bote, num lago.
Um amor que já perdi.
Parado, aí. É um assalto.
Ponha seus pertences
nesta caixinha.
Tranque tudo.
A todo tempo sou assaltado por memórias que não são minhas.
Recordação querida e nunca sentida por mim.
Bom é inventar memória - se assaltar assim.
Parado: é o assalto!
Tomado de assalto, sem salto.
Sem salto, tomado de assalto.



Meio-dia

Queria arder miúda nas estradas
do meio-dia.
Não me queira inteira: eu mesma, de mim, não tenho nem a metade.
Posso soar passarinho às 6 da matina ou vagabundear cigarra ao entardecer.
Mas não me peça a Aurora - só tenho dela os espirros do meio-dia.





24-04-09 (Diário)

Esperando uma resposta que não veio.
E tanto a perambular minha cabeça nessas horas.
As borboletas cerebrais.
Deixei a colcha na máquina, igualmente esperando.
Uma gargalhada e talvez acabe esta embriaguês.
B. não entende, ou melhor, entende mas não aceita dentros dos seus esquemas racionais a necessidade que tenho de me dopar.
Meus olhos coçam como o dia - uma criança de colo.
E os dois gatos se estiram, à vontade, na cama.
Esperando um telefone que não toca.
Então, um pequeno ato modifica tudo.
...





Veludo puído


Não se assuste, você, com o insano.
O verso, tal qual o riso, se muito polido,
soa burguês.
Vem, vem gargalhar ao molho de maracujá.
um pouco de bordeaux? Quer?
Por favor!
Tim-tim.
Não. Não zombe do insano. Nem sequer. Quereria?

- A nós!





O caderno


Este caderno é muito bom e inteligente.
me faz escrever ad infinitum.

2 comentários:

Anônimo disse...

que de-lí-cia!!!! Adorei todos, cada pedacinho!

Vário do Andaraí disse...

Adorei.
Mas este verso,

"O verso, tal qual o riso, se muito polido,
soa burguês."

está maravilhoso.


abço