Cartas na mesa... respostas ao tempo.
Depois de um longo farfalhar de dias, passasm-se os meses, sinuosos, obtusos, francos.
Diana bem que esperou uma guinada, um acontecimento. Mas nada veio ao seu encontro.
O que encontrou estava sempre no mesmo lugar: podia-se ver em qualquer espelho.
Com o tempo, as páginas da vida acumularam-se em dias e dias, meses e meses, anos e anos.
Não era Penélope, era Diana contradizendo o nome forte e a susposta castidade imposta pelos deuses. Diana, a intocada. Penélope, a espera. Seriam duas faces da mesma moeda?
Dentro dela, dentro do turbilhão de emoções orientadas por Deméter, ocupavam espaço Diana e Penélope, ombreando, dia a dia, as dobras do destino. Na grécia antiga, Diana, irmã gêmea de Apolo, dividia com o mesmo os muitos talentos e seguidores. Diana é selvagam, é a lua, a natureza nua, a castidade da mulher que escolhe cultuar a vida no lugar de um homem.
Já Penélope, esta ficou conhecida pela espera impassível de seu amado Ulisses. Penélope esperava. Dia após dia, pacientemente, tecia seu tricô pela manhã e desmanchava à noite, enquanto Ulisses vivia suas aventuras, viajava o mundo, enfrentava os monstros e inimigos que lhe atravessavam o caminho. Penélope não saía do mesmo lugar.
Um paradoxo da alma feminina representado em dois arquétipos contrapostos. Penélope é a espera benevolente, passiva: Yin.
Diana é a ação, a mulher que recusa-se a esperar, a submeter-se, Diana é ela mesma, não orbita em função de um falo. Contradiz os princípios da feminilidade e se expressa com a força Yang.
As almas femininas, mulheres, moças, meninas, têm um duo intrincado entre Penélope, e sua força paciente, e Diana e sua reserva explosiva.
E o nome da nossa personagem não é Penélope, é Diana. Mas ela, em si, como nós, seres sutis, carrega também sua Penélope.
Diana já ia pors seus 35, vivia o término não-dito de seu último e mais forte romance.
Diana era experenciadora da vida. Havia viajado muito, morado em outros países, trabalhava como tradutora, dominava bem qualquer língua. Nunca teve muitas relações, perdeu a virgindade tarde se comparada às outras moças de sua geração. Gostava mesmo era da vida, das aventuras, dos lugares que ainda não conhecia...uma linda mulher, enigmática, diferente das demais. Um belo dia...
o Cupido atingiu Diana e foi numa festa à noite, ao redor de uma fogueira, com ninfas, vinhos, muitos vinhos, uvas e todas as delícias imaginadas... Era Dionísio que oferecia a festa. Diana ficou encantada. Dionísio enebriou Diana e eles passaram 39 luas juntos, aos pés de fogueiras, à sombra da lua. Se encontravam nas luas cheias, somente. Sempre no entorno da fogueira. Houve uma lua cheia em que Dionísio não estava lá. A fogueira já ia se apagando e a lua, ao ver Diana, triste com sua frustração, se escondeu atrás das nuvens. Diana urrou, seu urro chegouu até os ouvidos Dionísio, que estava já do outro lado do mundo, em outra fogueira, bebendo seu vinho. Diana entendeu que Dionísio era como ela, da vida, do vento, dos prazeres. E se transmutou em loba e correu o mundo por 60 luas seguidas até encontrá-lo.
Dionísio sentiu o cheiro de Diana e viu aquele lobo cansado, porém forte, entrando no mar e tornando-se aquele brilhante mulher. Dionísio fez uma canção e tocou para Diana. Amaram-se aos pés da fogueira, e dormiram, fatigados. Diana acordou antes, cedo. Dionísio dormia, ébrio. Entrou no mar mulher e saiu loba, uma vez mais. Foi até Dionísio e por pouco não o devorou ali mesmo. Sua voz feminina, adocicada, Penélope de esperas infinitas, não deixou. Diana foi embora, loba feroz e mulher amantíssima coabitavam seus pensamentos, seu ser.
A loba tinha fome voraz. A mulher tinha incondicional amor.
Reza a lenda que Diana vivia duas luas mulher e, as outras duas, loba.
E, sempre que se tornava loba, era vista a cheirar homens ébrios, na beira do mar, em torno de fogueiras. Diana deixava aos pés de cada um por que passava uma garrafa de vinho.
Cartas à mesa, reposta ao tempo...
Diana: mulher comum, deusa intocada, loba selvagem, Diana/ Penélope... a miscelânea de Dianas e dias, de formas e sons, de cores e pensamentos, levam, cada uma de nós, a viver no imperativo. Sem medo de errar. Errando, errantes.
Coabitamos, coexistimos as muitas faces e formas que tomamos.
Como lobas e cisnes. Dianas e Penélopes.
Um comentário:
Que delícia essa história, Paula. Vc desenha fêmeas lindamente - e essa beleza angustia de um modo que não sei explicar...
Postar um comentário