7 de out. de 2009

o tempo da maçã

Telefonou-me, então.
Afobada, queria devolver-me o livro que pedi inda mais cedo.
Um  jorro de palavras rápidas pra disfarçar... muito do que se podia dizer.
Nós e o não-dito.
E sabemos tão bem desse jogo: nem tudo ganha corpo através das palavras;
algumas já morreram. Outras,  precisam nascer em novos papéis.
Então disse que não viria, não ia dar hoje; talvez, amanhã.
Te recebi, ainda assim e primeiro, com o cheiro forte do café que invadia e se espraiva pelo corredor.
Depois, te recebi de novo, com os poucos cabelos a pintar, a cabeça lambuzada de tinta,
a porta escancarada e o gato ao pé do elevador.
De calcinha, como criança menina que volta correndo ao colo da avó.
E você veio meio tonta, meio sem saber se queria, meio tímida, um tanto intimidada.
Veio rápido, disse não ter tempo e tanto desalento me deixou uma vez mais sem palavra.
Recebi e você veio...
mas de tudo o que passou, o gosto que ficou...
foi de maçã na cesta...

comida pelo tempo.

2 comentários:

Alpa Zen disse...

O Tempo, esta aí... devorando tudo! recriando, também.

Vário do Andaraí disse...

Menina, Cà estou de visita a sua nova casa. O que vc tem pra me servir ? Vodka ou chá de cidreira ? Deixo este bilhetinho : tem um poema de uma filósofa, Viviane Mosé, que fala do tempo comedor. Achei :

acho que a vida anda passando a mão em mim
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando