30 de mai. de 2010

Ao trocar solidões

Polímnia e Clio,



Tanto é o embaraço ao escrever-lhes, que acaba sendo insuficiente o ato da escrita, parco, talvez. Não, não se trata de embaraço, mas de uma condição difícil de nominar, que não necessariamente se nomeie, mas, seguramente presente. Algo incorporal que gruda e permeia.
Tem havido, por cá por esses campos, muitas oscilações. E  não entendo do que elas dizem, perscruto, como um cego que tateia desesperado ao acabar de perder a visão, mas tudo escapa a minhas mãos tão viciadas nos olhos. Uma cegueira momentânea, entretanto, que invalida algum olhar mais longínquo. Talvez não deva mesmo olhar ao longe, mas concentrar-me nas coisas do perto. Não sei por qual motivo exato, mas penso que vocês sabem dessas coisas, vocês sentem...

Sabe, queridas, sinto, que em parte, é de silêncio que se compõem nossas falas; Vocês concordariam comigo?
Num outro instante,  brotam, arrebentando essa mudez que é cúmplice do silêncio, sua melhor amiga.
E vamos falando juntas, sim, embora, muitas vezes em sussurros, com medo de expressar muito alto coisas o que há tempos não são ditas com força.

...

Numa conversa mais que agradável sob um sol nublado, estendida na areia, chupei um picolé de abacate e guardei o gosto, que era muito bom, pra contar-lhes do dia que passei na praia. Era outra a minha companheira de praia; como nós: uma ventania, mas de ventos cheirosos e sutis, carregados de pétalas e flores.
Naqueles instantes, naquelas horas que se seguiram, tive a sensação de que já não se tratava mais de um tempo sucessivo, não estávamos nele.
Não naquele momento.
Houve um brilho de percepção, uma sensação diferente em nós, por um momento ou dois, estivemos em contato com algo de muito leve - como uma insustentável leveza.

Mais à noite, no aconchego de um café,  por algum motivo, rachamos um silêncio de fixidez – nossa  solidão compartilhada.
Essa solidão que nos é tão própria e, ao mesmo tempo, tão estrangeira. 
E, muitas vezes,  é do medo da solidão que  fugimos. E ela se mostra inerente à condição humana, imanente ao fato de estarmos vivas.
Somos cúmplices de solidões.
E juramos silêncio.
Então,  pergunto: " que solidão é esta?"
Hoje, pela noite, ao trocar várias solidões, senti uma outra coisa,
uma outra coisa...

4 comentários:

Polímnia disse...

Já tens resposta, mestra minha.

maria carol disse...

Se podemos do meio começar,
podemos ir a qualquer lugar,
em que as solidões - bailando em festa
encontrem o rumo de prosa bonita -
que acalenta esse viver orgânico
chamado encontro!
Debaixo sol ou de sombra d'árvore
nao importa.
Estamos sempre sós ainda que bem acompanhados.

maria carol disse...

correio algoz:
http://verticalidadesviscerais.blogspot.com/2010/06/missiva-pra-pedir-colo.html

Polímnia disse...

esses silêncios...