Tenho a constante impressão de que sempre estou esquecendo de alguma coisa. Estou esquecendo alguma coisa, penso.
E essa sensação me acompanha desde a hora em que acordo.
Mas, por que estou esquecendo?
O esquecimento é sempre um processo em adamento, ao menos, é como sinto. Está frequentemente presente, e sempre ombreando com a lembrança. Por um triz, me esqueço; por um triz, me lembro.
E neste sol duro e radiante daqui debaixo da linha do Equador, onde tudo fica tão irremediavelmente claro, transparente, parece um pouco descabido a prática do esquecimento. Mais ainda: é renegado, oprimido e afastado. Podemos ainda nos esquecer com tantas tecnologias, tanto o que cumprir e uma gama de lembretes virtuais que não nos deixariam esquecer nunca?
Temos este direito? Parece-me, às vezes, que a lembrança se tornou algo próximo a um dever. Uma tarefa. Uma obrigação. Estando, ela mesma, desapossada de si nos dias de hoje. Deturpada como o tempo: a ditadura de Cronos em que vivemos. Assim como existem outros tempos, existe, também, outra forma e formas, talvez, de se inventar e produzir a lembrança. Não mais lembretes. Quiçá, ao invés de lembrança, memória.
Mesmo que o esquecimento não seja algo que se possa forçar - as tentativas de esquecimento são, em si, uma falácia, visto que não se tenta esquecer; esquece-se - mesmo assim, esquecer, me parece um ato, nos dias de hoje, minimamente, subversivo.
Por isso, sempre me esqueço de alguma coisa, todo dia.
Porque alguma coisa sempre escapa.
4 comentários:
Já havia te procurado....
Estás bem aqui...
em tempo!!!!!
olho-de-corvo
http://olhodecorvo.redezero.org/
Olá, rizomática!
Hoje me indicaram um vídeo sobre o tempo e a loucura em Deleuze. Ainda não assisti; assita:
http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-tempo-e-loucura-peter-pal-pelbart
Grande beijo.
E vê se inventa um tempo pra me ver!
esses esquecimentos subversivos. essa força de quebrar, torcer, mudar: inventiva e linda vc. tomara que um pouco disso sempre escape em seus escritos acadêmicos...
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