19 de jun. de 2010

Jaia

À Jaia


E o que não foi venta forte esmurrando a porta.

Pensava que você fosse só um sonho, espécie de fruto insensato duma imaginação movimentada, mas, de súbito, percebi... Você habitava os sonhos, mas suas carnes eram tão macias quanto as minhas, com essas olheiras tão escuras de desatino.
Eu costumava acreditar, quando era menina, que toda a manhã o sol se vestia, porque passava a noite nu, sentindo frio. Então, quando resolvia se aquecer, amanhecia. Ele punha um casaco amarelo, todo brilhante e ninguém mais tremia no desalento.
Pensava nessas coisas, como quem brinca com as borboletas cerebrais, num circo ensandecido de toda sorte de coisa, gente, bicho, voava já bem longe, quando minha mãe me flagrava desprevenida: "menina, falo com você. Em que planeta está?"
E ela nem sabia, nem nada...

Sabe, um dia, também, recebi uma visita. Me foi apresentada uma fada. Isso devia ser aos 4 ou 5 anos de idade, e ela sorria toda derretida e faceira, enquanto fazia piruetas nas mãos que a haviam capturado, como quem não ligasse, como quem não temesse.
Nada.

Nunca contei essas coisas a ninguém. Mas falo para você que entende das coisas miúdas e das nossas miudezas grandiosas. Gosto de testar você, de ver até onde você vai e até onde pára feito poste. Por sorte, quando resolve parar, me faço cachorro e dou uma leve mijadinha aos seus pés; para você não esquecer.

Você, às vezes, se faz de rogado e me larga, ainda assim. Me deixa ao vento, ao léu, assim voando, cheia de invencionices, enquanto você se enraíza teimoso, filósofo do mato. Finge que compartilha de novidades quando toca suas canções, mas, de fato, só estremece todo diante do já antes visto. E penso se você se dá conta... e penso se é isso mesmo.

Ouço o vento, ele esmurra a porta, tenta derrubar tudo que enrijeceu à sua frente, impedindo sua livre passagem. Por que, vento? Porque insistes em ser tão afrontador quando o que só queremos é sua brisa apaziguadora?
Você faz esses barulhos estranhos com seus instrumentos e me pergunto: o que é esta flor? Fico me perguntando a que horas vais arrancar a faca oculta no teu paletó.
Por que te omites, quando, na verdade, só precisavas brilhar como o sol?

Uma vez mais, as borboletas me chamam, preciso ir...

4 comentários:

Jaia disse...

ai, que delícia. escrevo uma carta secreta e quem me responde é uma criança. também conheci uma fada, querida. aliás, devo confessar uma coisa: em minha vaidade toda infantil, a fada era eu. e não sei se era vaidade ou generosidade. eu deixava de ser princesa e me tornava a fada miúda que realizava os desejos. vaidade-generosa. generosidade-mais-que-arrogante. fadas são mais belas que princesas. eu sei, pq elas voam. o que é mais belo do que aquilo que voa? depeço-me agora, que o vento chegou pra balançar minhas águas - estremecendo aflitas, volúpias.

cisco disse...

Primeiro pensava que falava sozinha, inventava pessoas. Depois que invertia histórias, quando o sol se veste de lua. Então descobri que há uma fada que vem no vento. Suave em violência. Quantos interlocutores teremos que inventar para nossas cartas? Quantas roupas para nossas perguntas?

Pari-Paula!
Vento-chuvisco.

Carla Jaia Polímnia disse...

uma breve carta pra vc. vai lá! (ou vem aqui)

Unknown disse...

Conheci sua letra de punho num pedaço de papel, enrolado dentro de uma garrafa, que uma onda jogou na areia aos meus pés...belos devaneios.