Sabe,
queridas, comecei a ler aquele livro que Polímnia displicentemente deixara sob os travesseiros quando aqui estivera...
E senti uma coisa como um clarão, como um calor do mundo, e senti tão forte que foi quase sem ar que percebi algo que ela já dizia tão segura, como quem revela um segredo óbvio de todos nós, de todos os dias... e o faz como quem entoa uma lira das mais idílicas, em seu canto-amor-tato, suave, insistente: "a terra sangra!"
E, então, vejo que tens razão, ela não cansa de sangrar seu pulso ardente a todo instante e é tão forte e tão fraco e é tão, tão...
Por vezes, estamos muito insensíveis e insensatos para sentir, e a cada segundo ela pulsa: chama em brasa, berra em histeria, sussurra, prudente.
Clama!
(por cada um de nós)todos!
Por nosso sangue. cada! gota a gota, orvalho a orvalho, seiva a seiva.
Na cama, outro dia, pensei nessas coisas da vida, de o que é mesmo que é tudo e, ao mesmo tempo, o que não é... sensação engraçada se apodera da gente vez em quando, que a gente deixa de dar nome, deixa de pensar forma, passa só a sentir umas coisas esquisitas, porque sem nexo, porque desarrazoadas... porque coisas...
e uma forte impressão que tenho tido é que a incerteza se tornou tão certa, sabe? certa que tornou, já não é mais incerteza, mas, tampouco é certeza, também. Mais uma estranhação, assim dessas...
E de tanta coisa-diferença na carne, senti muita vontade de falar com vocês, ouvir vocês. De dizer das coisas todas, tolas, coisas de dizer, coisas de não dizer, coisas de sentir... coisas.
Os caminhos são estranhos, também... ora gozosos, ora escatológicos...ora destrilhados... Ora, ora!
E ainda caminhos em esplendor.
Por onde andará Dulce Veiga a esta hora? (me pergunto com um chá entre os lábios, já queimando a ponta da língua, o céu da boca). Por onde? Andará, ainda?
E roubaram-me uma bolsa... fico irriquieta com isso... tão bonita! E eu a carregava imperiosa, hoje mesmo. Era carmim com uns bordados à mão, bordados árabes; rara, linda. Mas levaram.
E ela estava vazia. Dentro só havia uma carta. Uma carta com uma promessa.
Carta que ia entregar para vocês, e que se foi com a bolsa carmim.
Nem posso dizer que o desespero me apoderou inteira por ter ficado sem aquela que era minha favorita e carregava uma promessa...
talvez não fosse para ser...
talvez...
Mas penso que não, e agora, terei que procurar outra.
Talvez tão parecida, tão quanto, como, onde... se possível.
E tenho que encontrá-la logo.
Pois sem ela não entrego, não sou carteiro, nem poeta. Aquela era uma bolsa diferente, não uma qualquer, não para guardar carteiras, cigarros, balangodangos. Carregava coisas, sim. Coisas imagens, coisas inspirações, coisas viagens, coisas cartas...
E agora, olho nas outras bolsas à procura daquele dom coisa, dom roubado, e o que vejo é a aridez do asfalto negro, a sujeira do dinheiro gasto e despedaçado.
Fecho o armário e daqui de longe, da janela do 13º andar, tento não ser princesa em torre, rapunzel em brasas! E com meus olhos falhos e meu corpo trêmulo de ainda espanto, espio uma pequenina flor querendo irromper na multidão de carros e passantes apressados. Eu na torre, ela no asfalto.
Entretanto, está serena, calma, alerta e forte em sua sutileza petálica, resistentemente cheirosa.
Penso nela, como penso em vocês e nessas flores que encontramos nos lugares mais não esperados, que exalam, surpreendentemente, seus poemas tão singelos, mais doces, mais passarinhos de asas curtas, porém robustas, como os liliputes doutro dia.
Pra mim, aquela flor miúda e virtuosa, brotou do sangue da terra. Do sangue da gente. todo. cada.
Ouviu.
Gemeu.
Apavorou.
Viveu.
Vive.
Gota a gota, orvalho a orvalho, seiva a seiva.
um afago-flor-pétala-rubra,
Lily Hipólita.
5 comentários:
Cara Lily
um chá para queimar a ponta da língua. Falemos. Queima-se mais, assim. Sinto que tenhas perdido a carmim, de aventuras, de inspirações. Podem a ter levado, como o fizeram. Mas a flor ainda sangra no meio da rua. Do asfalto. Da poeira. Dos embaraços e perdilezas da vida. É pavoroso, às vezes. Sim. Também sinto. Também me pergunto por onde andam nossas genuínas incertezas brilhantes e porque nos abandonaram às certezas-sei-lá-o-quê impressentidas. Não sei explicar como me sinto pétala. Mas não carece. Suas letras, palavras-afagos, fazem eco na escuridão desta noite e acordam o mundo em grito rubro-carmim! Gosto de acordar no meio da noite. Só para lembrar-me de que ainda não morri. Hoje, antes de falarmos pela manhã sonhei - sonhos confundidos. Sonhava que ganhava. Sonhava que perdia. E quando acordei: havia perdido. Perdeste também tua bolsa. Mas de costuras e recortes coloridos - senão parecida - faremos trilhos. Rastros. Outros encontros brilhantes e cheirosos nos encontrarão! Acredito, nisso. Nisso: tenho fé. Fé rasa e miúda, como despedimento de linhas-carta: até mais, querida.
Não percas o sono toda noite. Tens andado com insônia. Perca só de vez em quando: para lembrares também de estás viva!
te adoro.
Clio- Maria
Paula,
Chego aqui pelo blog da Carla. Chego e vou ficando. Já li dois textos: Carta que geme de prazer e de pavor e Embaraço. O afago jorroso das palavras me conta reconhecimentos: sabe-se porque se carrega no dentro das gentes. Vasculham mistérios, desmotivadas de logicidade, sensíveis modos de existir simbolicamente. Essas coisas nascem, tão secretas, e quando a trazemos, acontecem de alvorecer caminhos, palavras, a poesia de coisas que sangram, como a terra do texto da Carla, como "coisas esquisitas, porque sem nexo, porque desarrazoadas" que o seu texto também nos traz.A gente sabe, mas redescobre, porque na lida cotidiana há muito pouco tempo para iluminuras, sombras, desdobramentos. Acolho os prazeres, os embaraços. Cores para as telas da memória, que usarei nos meus caminhos. Há aqueles que vasculham, que nascem meio pra dentro(aparente alheamento), que estão impregnados da intimidade de pressentidos gestos, porque sentir, sentir é preci(o)so.
Sem mais, continuo a leitura. Mais uma carta talvez. Saio sem fazer barulho, como num voo. Volto depois. :)
Até.
Beijo,
Beta
Lily,
você anda tão miúda ultimamente. assusta: tudo o que é miúdo é pq está prestes a nascer gigante. o que acontece a um lírio quando ele cresce tanto a ponto de destruir o asfalto? já viu isso acontecer, desse seu 13o andar? já destroçou o alfalto, lírio-flor?
Ei tempo- hipolita.
Cada um de nós tenta passar por aquilo que nos atravessa.
Veja palavrinhas de Machado de Assis (In: Esaú e Jacó):
"O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima do invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro."
abç
Então, respondi. Breve, murmúrio, súplica. Acho que súplica, mesmo sem ter certeza.
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