9 de ago. de 2010

então, é você que veio.

Sabe, Polímnia,
ainda não lhe arrumei um novo nome. Nome que comporte todas essas suas curvas suaves, nome que abrigue toda sua fortaleza do olhar.
Os dias têm parecido me escorrer pelos dedos.
Esse tempo, tão acelerado para todos; para mim, continua no seu ritmo cadenciado, quase sonoro.
Tenho aqui, dentro de mim, uma vida que urge, uma emergência de viver, uma vontade de explodir, saindo tonta, ainda, do casulo-corpo. Não saberia explicar como é isso.
Talvez seja um processo da natureza, como acontece nas plantas. Já notou? Elas explodem a terra. Brotam das entranhas da terra. As plantas precisam de terra. Aquela mesma terra que, sabemos, sangra. Sangra para ti, para mim, para tudo.
E é desse sangue que emerge uma nova vida. Um novo nome. Um outro, do outro.
Deixar passar, não é? A terra deixa as plantas passarem. A planta passa por entre a terra. Macia, negra, gorda, texturizada, viva.
Repleta de realizações.
Embora te fale de tudo isso, não é nada disso. Ou, não é só. Nunca é só, lembra? Tem também uma outra coisa... tenho me escondido.
Tenho me escondido bem aqui.
Por detrás das cortinas de chita.
Essas cortinas vieram com a promessa mágica de colorir a íris de quem assenta, sobre elas, a vista.
Responsáveis por trazer uma profusão de sensações: de alegria, de acolhimento (naquele instante exato em que passa o vento e sacode suas saias, espalhando pela casa todas as flores, tantas cores), e outras sensações que permeiam o campo do invisível, do incerto, do duvidoso... shhhh!
deixai, não falemos delas.
Como boas bruxas, sabemos, há coisas que as palavras não alcançam.
Fico, daqui, tentando não enlouquecer com este barulho. Um barulho chato, que me irrita profundamente. Barulho que vem da rua, dos pneus afoitos que rangem sobre a terra, (agora, forçosamente, travestida de asfalto).
Esse barulho que enerva e entedia - as cortinas de chita não conseguem abafá-lo. Como também, não conseguem me encher de sono nas noites em que me vejo como uma coruja, cheia dos grandes olhos de desassossego.
Então, veja, me pego divagando sobre o papel que teriam as cortinas de chita...
Não durmo direito, Polímnia. E isso me deixa no limite. No limiar. Bem naquela linha tênue, que adoramos e tememos, ao mesmo tempo. É nela que tento me equilibrar, na corda bamba de uma razão triste, o tempo todo cambaleando com a loucura devoradora. às vezes, caio. E subo, uma vez mais, o mastro que me leva ao equilíbrio desiquilibrado. Carrego, comigo, aquela bicicleta de uma só roda e fico lá de cima tentando malabarismos diários, soluções que estão sempre sofrendo o peso da grávida realidade- gravidade.
Penso em você nessas horas de devaneios reais... Vejo teus olhos esverdeados, sinto o cheiro destes olhos.
Eles cheiram, você sabia? As pessoas costumam achar que olhos - apenas- vêem.
Mas, daqui, sinto o cheiro de teus olhos verdejantes.
É toda uma floresta que escondes dentro de si.
Dama das florestas, andarilha das noites enluaradas. Huuuummm... shhhh! silêncio. Escuta, atenção! lá vem, ele chega... vc o ouve? consegue sentir seus passos ao longe? Consegue sentir se aproximando? a pulsação? hum... que delícia. Escuta, sente. shhhh! silêncio. não o afugente. está cada vez mais perto...
chegou.
Olha, espia. Que belo! Que vivo!
Encontrei agora, acabou de passar por mim, correndo, descabelado, selvagem...
está já ao meu lado...
te apresento seu próximo nome:

Diana.

Vá, Diana, vá e banhe-se neste rio que corre na terra que sangra, que é o sangue da terra, que somos todas- sangue. Sangue das mulheres. Sangue da terra.
Força da gente. Força da vida. Siga seu destino selvagem e imprevisível, minha querida. Espero teu regresso. Corra, cavalgue, voe. Porque só você faz isso como ninguém. Liberte-se!


Antes de ir, te deixo isto: é com desassossego, com certa aflição que lhe deixo esta carta.
Como disse, as noites têm sido longas... e ao dia,
ao dia... não sei o que fazer com tanta luz. Me diga, Diana, você que sabe de tantas vidas, que passa por elas, que invade, que se insinua, que percorre o mundo, que é fruto de admiração e fonte de coragem - o que fazer com tanta luz?



Fico aqui, e daqui te aceno. Ergo meu arco e te saúdo, cara.
Andemos na nossa jornada insensata e insana... dias de saborosa inglória viva.
Sigamos...


até!

6 comentários:

cisco disse...

Paula-a-Paula,
paulatinamente a gravidade leve de sua gravidez inventa mundos sonoros à volta, de volta... aonde mesmo?
Esses nomes, destinatários (destinos) de cartas esvoaçantes e silenciosas, esses nomes-mundos escritos, conversas na cama, atrás da cortina de chita, soam como vento, e vejo você aí sentada, prenhe de tudo, e me sento e me sinto fazendo parte dessas conversas e não tão distante.
Um beijo e um queijo mineiro.

Dauri Batisti disse...

Passando aqui para dizer que já te adicionei lá no ESSAPALAVRA. Agora terei o prazer de acompanhar as batidas do coração do tempo por aqui.

vamos juntos.


beijo

Dauri Batisti disse...

Vou ler as cartas.

Vamos juntos.

Diana disse...

ah, mas eu acho que uma resposta começa a nascer. ainda não a enviei pelos ventos que levam até você. mas nasce aqui dentro. quase como belezas nascem dentro de você.

Anônimo disse...

Como esse blog está lindo!

Diana disse...

nova carta.