6 de set. de 2010

Vidinha mais ou menos

Os últimos feriados cheiravam a tédio.
Há muito que não viajava e não fazia qualquer coisa de produtiva e interessante, portanto, nos feriados, ficava modorrenta mais do que de costume; como aqueles dois gatos estirados o dia inteiro no sofá.
Não via a hora de chegar dia útil para cumprir toda a utilidade de seu dia. Queria realizar tarefas, realizar tarefas, realizar tarefas, correr contra o tempo, realizar tarefas.
Era tão cansativo ficar em casa sem nada ter a fazer, que preferia uma agitada manhã de segunda-feira, filas nos bancos, pessoas se atravancando pelas ruas sempre a consultar os relógios, pedintes e toda a sorte de coisas que compõem a cidade. O barulho dos carros, as buzinas, tudo isso a excitava. Gostava tanto da rotina acelerada e barulhenta, quase como quem gosta do sussurrar do vento e do cantar dos pássaros. Detestava o silêncio, algo no silêncio a matava um pouco. Não conseguia pensar em silêncio, não podia se concentrar sem algum ruído; pressentia o vazio do mundo e nada mais pavoroso que aquele vazio no peito, o vazio do homem.
Precisava de barulho, precisava de gente. O silêncio lhe soava como pretensão.
E uma coisa que não era, era ser arrogante.
Se entendia com gente simples, cultivava coisas simples. Gostava de churrascos na laje e de cervejas, botecos e o burburinho fácil do anoitecer nos bares, nas praças. Em casa, tinha flores de plástico para decorar, achava-as mais práticas e bonitas e fáceis de limpar, sem contar que nunca morreriam. Tinha um pavor escancarado de tudo que morre, de tudo que morre.
E ia levando a vida assim, anestesiada, presa na cadência utilitária dos ponteiros; vivendo o avesso, o avanço, a adoração pela tecnologia.
O microondas, comprado em persistentes parcelas, no café, rapidinho, para esquentar.
O microondas, com os juros amortizados, no almoço, rapidinho, para esquentar.
A comida congelada de quase todo dia apressado.
Adorava as coisas úteis e práticas, se deleitava com a tecnologia de ponta produzida em outros países, sempre procurava artigos e revistas trazendo as novidades do que foi lançado no mercado internacional. Admirava os chineses, os japoneses e os americanos: isso que era civilização, não a gente, povo pequeno, atrasado! Gostava mesmo dos criadores de utensílios cada vez menores e mais poderosos: povo esperto os japoneses, inteligentes, científicos.
Sempre dizia: "quanto menor, melhor." Esse era o lema do progesso das máquinas de hoje, das máquinas que gostava. E se endividava toda para pagar em 24 meses, o que podia com um pouco mais de 1 salário, que ganhava no atendimento suado de telemarketing.
E assim vivia. Conduzia sua existência, também, pelo menor; pimeiro, o menor esforço; depois, a própria vida era diminuída até sua potência mais moribunda, precisava de espaço para tantos badulaques.
Pulverizava a vida com artificialidades, não enxergava quase nada que saísse do script.
Nunca pensou em se mudar dali. "Pra quê? Aqui tenho tudo perto, tudo que quero. Mudar? Só se fosse pra fora, prum lugar melhor, mais evoluído, pros Estados Unidos, ou então, pra Europa".
Nunca quis ir pro mato, detestava insetos.
E dependia dos inseticidas.
E então, seguia, como costumava dizer: "uma vidinha mais ou menos"...
No olho do tédio, cambaleando com ele, disfarçando para si mesma, para o mundo. Entre o necessário e o utilitário, deixava a vida vazar quase sem perceber...
mas, em sonho, sentia... algo estava estranho, algo estava por demais organizado. Não deveria haver espaço para a bagunça? Raras vezes se permitia a esses pensamentos insanos, mas logo retomava a ordem e a disciplina, porque só assim chegaria a algum lugar, só assim seria um ser evoluído, pensante, produtivo.
Mas o tédio dava as caras nos dias que paravam, dias mortos, como dizia.
Em tais dias que a cidade descansava, os habitantes largavam seus hábitos e rotinas e iam viver outros hábitos e rotinas: programados anteriormente, para que nada desse errado...
O que, talvez, ela não percebia, era que o tédio não aparecia nesses momentos de não-tarefas, de não-produtividade; estava ali, desde sempre.
Bem no seio e no meio - daquela vidinha mais ou menos.

3 comentários:

Ruth disse...

Paulinha, assim como camaleão o tédio se camufla entre as correrias cotidianas.
E não temos certeza se queremos mesmo que ele seja na real, explícito em seu cansaço e enfado.
Mas, penso que até ele de quando em vez sente necessidade de revelar-se a alguem,a qualquer coisa em qualquer lugar que seja.

Abçs querida

maria carol disse...

Aquele tédio conhecia de longe.
Mais que isso: isolava-o.
Queria ver se testes se aplicavam nele.
Queria que ele fosse cotidiano.
E ele era.
O dia surgia quente - naquela cidade. Sem nenhuma brisinha que fosse.
Puder: o calor queima os miolos.
Foi ficando insólita.
Eis que rumava toda semana, ao mar-outro. Não mar-morto. Mar-outro fazia novas ondas, outros ares.
Até o sal tinha gosto distinto.
Lá ela podia fazer-se.
Espreguiçar-se como kundera....
Lá ela podia dormir.
O cotidiano era tingido de cores ocres e rubras - ao mesmo tempo.
Virava arco-íris cintilante. Envernizava paredes polidas.
Esmaltava cartilagens branqueadas.

O dia saía a vapor. Nem se contavam horas, nem fios.
Ele simplesmente passava.

Das noites e das insônias, contavam-se sempre as peripécias sonhadas.

Planos eram as baldes confeccionados. Elas costuravam toda noite.

O tédio era fio mais bonito! Era da cor que quisessem aquelas falantes!

O azul nem era um. Era monte.
O monte nem era pedra. Era mar.
O mar nem era lágrima. Era riso.

Riam.

E mesmo que nada dissessem, estavam lá
a matar os rijos-cristais.

Se diluíam.
Se costuravam.
Se deleitavam.

Os sonhos - nem percebiam,
já eram realidade.


bjos flor!!!!

Carla Jaia disse...

e eu vi beleza e ternura nela: uma suave vontade de acarinhá-la - essa mulher que conduz as coisas do jeito que lhe parecem possíveis. eu vi beleza e ternura: há uma asa ali.