Então, de súbito, entendeu aquela afirmação que há tempos lhe pareceu tão inverossímil.
- Me enganei contigo, és mediana.
Não se tratava de perder tempo com mensurações, mas de sensibilidade; já que nossas percepções vêm, em boa medida, da nossa capacidade sensível, de nosso corpo sensível.
Mas por que só agora, anos mais tarde, essa frase lhe veio como um clarão, um pressentimento?
O que importa é que percebeu, enfim, o que queria dizer o interlocutor já morto.
A vida como um breve instante, um soprar, um bater de asas - exige muita sensibilidade para que a mágica não se perca, grosseiramente confundida com a banalidade.
A linguagem, além de ferramenta, torna-se o meio; além de forma, força - por onde resvala e cresce o pensamento insensato, jovial, intempestivo.
é que certas coisas precisam de tempo, sabe?
de maturação.
O tempo de sentir o sensível, o tempo de perceber o imperceptível, o tempo de colher o que está a brotar - tempo de enxergar outras cores, antes não compreendidas, não por falta de acuidade visual, mas por excesso de velocidade.
O tempo que requer pausa.
O tempo que requer tempo.
E assim, depois de algum tempo, algumas coisas se assentaram, outras mudaram de lugar, outras se desfizeram...
certas coisas, só o tempo para dar conta.
Um comentário:
É que essas ondas têm mania de trazer de volta as frases antigas. E elas viram poesia.
Tem carta pra vc. Adoro-a!
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