Minha querida Polímnia,
você não sabe como gargalhei ao ler sua carta! Gargalhei de gozo, sabe? Não de deboche. Gargalhei por te ver xingar, gritar, se exaltar e dizer: porra, que merda isso tudo! (em alto e bom tom!)
Há poesia na merda, também. Na merda, na porra, nisso tudo.
Não somos só feitos de compreensão, de tolerância e de palavras bem colocadas, seria um destempero qualquer pensar assim, se pretender assim quase perfeito.
Somos um tanto de mal-entendidos e desassossegos, de estresses e pendências, de prazos e tamanhos. Vivemos numa regra - mas desregramos pra poder viver.
Ontem chorei que nem criança, que nem você, mas talvez, mais um pouco.
Minha tia, minha musa de Salvador, esteve aqui por breves dias, apenas 4 e sem dúvida não foram suficientes para acalentar o espaço deixado entre nós desde novembro, desde o nascimento.
Então ela veio, quando se foi, deixou um pedaço do cabelo e eu lhe fiz um patuá com trevo de 4 folhas, um cristal, uma pedra da lua e um origami com a oração do Ayam, mas ela perdeu.
Perdeu por viver forte.
Perdeu por saber de histórias que vieram fortes ao seu encontro e lhe mataram um tanto.
Ela deixou o pássaro-patuá voar em proteção a um outro, um outro colega, a uma família que morreu numa tragédia, tragédia que caiu o carro do sétimo andar, andar garagem, mãe e três filhas, pai-marido vendo tudo, imagina só!
E eu chorei, não pela perda, pois não sabia dela enquanto chorava, mas pela saudade de vê-la entrando na sala de espera do aeroporto: bonita, negra, singela - só ela pode ser assim: destrambelhada e certeira! E eu achando que não a veria mais, que demoraria muito... chorei que nem bezerro pela vaca.
Mas ela foi, foi e ficou. Deixou lá em casa uma presilha que lhe servia bastante para aliviar o calor do nordeste, dos dreads pegando na nuca suada de tantos projetos, de tanta vida.
E você, minha Jaia, você é tão selvagem que nem sabe, nem sabe e esconde essa fera, domestica com fala mansa e branda, mas a fera vem, inevitavelmente, ainda que em horas de indignação, a fera vem forte, intensa e rasa.
Suas lágrimas e gritos, seus xingamentos e maledicências: como é bom dividir isso e multiplicar nossa potência de agir, de pensar, de viver fora das rédeas!
Sua mata não se desmata, mas pode matar. O papel - vil? necessário, desmata, não mata, mas pode matar.
é bom ficar de olho! Regar o verde, plantar na rede.
Adoro- te!
me ligue sempre para gritar, você não sabe a força que tem o seu grito.
Um comentário:
Doçura. Responderei com carinho assim que puder. Hj acabei por escrever um texto que nasceu de uma história contada por uma mulher tão bela, tão bela.
Obrigada pelas palavras. Pelas forças. Por tudo!
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