Rafaela sempre foi uma moça agitada. A mãe dizia isso desde cedo- "essa menina está muito agitada hoje"- e assim foi crescendo com a pexa imposta pela família, com o tempo. Em certa ocasião da sua vida, Rafaela se deparou com seu próprio vazio, o vazio que era escondido em seus agitamentos. Diminuiu a agitação e deu lugar à depressão. Deprimida, Rafaela não era mais agitada.
Por um tempo, ficou bem, sem perceber a depressão - menos ansiosa e precipitada.
Só que um determinado dia, Rafaela, que já andava bastante confusa, caiu em desespero.
Foi no meio do expediente, num dia claro, depois de finalizar um romance. Rafaela se convenceu, como no romance, que estava ficando louca. E começou a pintar forte seus sentimentos com as tintas da insensatez. Sua vida passou, por um curto espaço de tempo, a ser dedicada à cura. Cura: palavra perigosa.
Rafaela tentava a todo custo ficar bem, se curar, tentou, por muito tempo, debatendo-se em si mesma, acabar com toda sua dor. Rafaela tinha amigos, pessoas que lhe faziam companhia e trocavam experiências. Bons amigos. Um desses amigos era mais próximo, uma amizade intensa. Só que Rafaela além de confusa, deprimida e agitada, também era muito ingênua e fantasiosa.
Rafaela acreditava que aquele amigo era uma pessoa rara, distinta da maioria que só sabe julgar, categorizar, distorcer, usar os fatos em benefício próprio, enfim... um tipo de pessoa a que se chama de especial. Mostrou, então, pra esse amigo, todos seus desatinos, sem medo de sua balança. O tempo passou, outras coisas aconteceram, situações emocionalmente bastante confusas surgiram entre ambos. Rafaela não sabai mais do limite das coisas, não sabia mais de quase nada dentro daquela amizade. Rafaela, então, se afastou do seu querido amigo. Mas ainda não sabia do que se tratava, ao certo, a dissonância entre eles. Ela se perdeu no meio de sua própria confusão misturada à confusão do momento.
Seu amigo, o Jorge, era uma pessoa calma, tranqüila, inteligente, muito crente e influenciável. Qualquer um que conversasse com Jorge, falasse o que quer que fosse, impressionaria-o. Jorge não tinha consciênia disso, aparentemente. Nem Rafaela.
Meses passaram, anos, outras coisas surgiram na vida dos dois. Jorge teve muitas experiências boas e agradáveis longe daquela amizade. Um belo dia, Rafaela pôde se encontrar com Jorge espontaneamente; como nesses encontros proporcionados pela vida. Através desse encontro, descobriu o que ajudou a detonar muitas das bombas do passado. Jorge havia sido envenenado. Uma mente astuta de alguém que não era próxima realmente a ele, mas que tinha um certo tempo de conhecimento com o rapaz, aproveitou-se da situação entre os dois e lançou a maledicência num ar que já estava para lá de rarefeito. Rafaela havia se encontrado com esta pessoa, que também era amiga de Jorge, e desabafado um tanto de suas confusões imprecisas. O que Rafaela não sabia, nem podia calcular, é que essa pessoa, que acabava de voltar a se aproximar de Rafaela, era alguém tão só e tão triste que em tudo que tocasse, deixaria, de alguma maneira, o sua própria dor. Rafaela inicialmente chorou a sua recém-renascida amizade, mas, logo, apenas se penalizou e percebeu que não era exatamente maldade, mas equívoco. Mesmo que as posturas fossem um tanto duvidosas para alguém que se dissesse tão amiga. Rafaela oscilava entre o aceitar e o refutar os fatos. Percebia que aquela criatura aparentemente doce estava cheia de coisas internas que precisava extravasar. Mas Rafaela não era terapeuta, tampouco tinha alguma formação, tudo que sabia era de sua própria vivência, era da vida.
Por isso, se rendeu à indignação quando concluiu que aquela sua pseudo-amiga estava mesmo era se apossando dos tormentos alheios e transformando-os em verdades estagnadas e cheias de malícias.
Qual Iago, em Otelo.
O Jorge, rapaz inocente, acreditou plenamente em tudo que lhe foi dito e sugerido. Sugestionou-se.
Na época ele já estava tendo umas impressões em relação à Rafaela.
Já não aguentava ter que servir de pára-raio das confusões da amiga, de muitas vezes estar no centro do olho do furacão.
Jorge precisava daquilo. Precisava respirar. Precisava ter um porquê. Precisava crer em tudo que lhe dissessem para poder se libertar daquela relação sufocante e dependente. Numa medida de auto-preservação, Jorge deixou o bom-senso ou, o senso de lealdade, de lado. Abandonou qualquer critério e tomou as mentiras do outro como verdades. E, agora, verdades suas. Rafaela não percebeu isso na ocasião. Depois de certo tempo em que estavam distantes, notou alguns comportamentos estranhos vindos Jorge; só aí, então, que foi enxergar o pé em que as coisas estavam.
Mas já não ligou. Nem quis alertar ao Jorge, nem tampouco se indispor com a pessoa que ajudou a criar esse desconforto; não valia a pena. E, dessa vez, não tinha nada a ver com a alma ser pequena.
Achava que, por mais estranho que fosse, era um aprendizado pra todos envolvidos. Que o tempo, senhor de tudo, operaria muitas e muitas transformações em todas as histórias que estavam, naquele momento, como a relação de Rafaela e Jorge: demasiadamente fundidas.
Rafaela seguiu sua vida, e sem Jorge por perto, até bem melhor - senhora de si. Jorge, por mais que fosse um bom amigo, estava sempre à caça da perfeição e, o que ele achava que era clareza de visão, era, muitas vezes, o que mais lhe cegava. Rafaela rompeu, em definitivo, com Jorge.
Aquela amizade em frangalhos, aquela amizade que provou não ter a força suposta de um dia, que se desestruturou basicamente com palavras, não tinha mais espaço para Rafaela.
Rafaela teve que lidar sozinha com suas próprias confusões inventadas.
Enfrentar seus medos, podar suas vaidades, temperar seus anseios.
Rafaela podia andar tranqüila, não precisava da aprovação, nem da reprovação de ninguém. Estava, definitivamente, plena consigo mesma.
E o Jorge? Bem, o Jorge estava naquela: calmo,como de costume; tranqüilo, como de hábito e cheio de vontade de viver a vida, como de fato.
A pessoa que semeou mais discórdia, até ela, mesmo com a consciência turva, buscava algo. Dando suas cabeçadas, caindo e se levantando, mas, ainda, e acima de tudo: tentando.
Moral da história:
Julgar é pura ilusão do ego.
E a Rafaela, Rafaela acabou aprendendo a distinguir o que era dela, e o que era do outro, sem se confundir mais no meio de tudo.
E então, deu uma banana pros conceitos que lhe queriam impor e que ela se auto-impunha.
Rafaela cresceu, já não era uma menina repleta de temor.
Agora, surgia ali, uma mulher.
Aprendeu muito de si.
Percebeu que todos se equivocam e se projetam no outro o tempo todo.
Que não se deve levar as coisas tão a sério; mas acima de tudo, que o outro é humano, como ela.
Livre de qualquer cura.
Livre de qualquer culpa.
Cura: palavra condicionada.
Culpa: palavra que aprisiona.
Um comentário:
estranha essa serenidade que aos poucos nos toma, e que nos traz a clareza de que nem sempre vale à pena tentar remediar certas coisas... e laços se desfazem, não por uma fraqueza de desistência, mas por uma força de liberdade...
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