Sabe, Polímnia,
foi necessário um tempo.
Um tempo pra que as coisas se assentassem, um tempo pra que os mundos se alinhassem, um tempo para que o caos viesse, para que o oceano revolvesse, para que a terra urrasse seus tremores, para que as águas descessem enraivecidas, desapontadas... houve guerra. Houve dor.
Coisas muitas foram duras, Polímnia, e você, com mania de saber, sabe, sabe bem de algumas durezas. Essas durezas, encarei-as como amazona ferida que sou, no peito, mas com meu escudo a proteger-me de qualquer outro-novo golpe. No campo de batalha não se pode parar, não se pode deixar o campo para curar as feridas.
Depois da luta, precisei me curar; só então pude escrever-te.
A espera foi longa, eu sei, mas perdoe esta amazona cansada de guerra. O tombo foi demasiado alto, necessário se fez um certo tempo para estancar o rio de sangue. Tente entender esta carta como uma não-carta, talvez uma confissão, talvez um desabafo, é, talvez uma carta. E há uma enorme poeira nas suas entrelinhas, que talvez falem de um abismo e de uma pinguela estendida por sobre ele. Num curto espaço de tempo, numa aceleração descontrolada de cronos, o mundo, qual garoto peralta, resolveu avessar tudo, e eu, amazona teimosa, crina ao vento maldita, agarro-me sem deixar que tudo se desmorone e que me leve junto.
Lembras, Polímnia..., foi tu que dissestes que a terra sangra. E sangra. E eu vi e senti o seu sangue em minhas próprias veias voltando pra terra, virando sangue terra.
O terremoto esteve aqui, levou o que tinha de levar, deixou o que ficar deveria... e digo, foi até boa essa sacudida. Algumas coisas que estavam bem escondidinhas, guardadas com uma pequena dose de desprezo, saltaram vaidosas e mostraram o quão impalpável é o desapego. Elas foram acolhidas, e em todo seu esplendor.
Essas coisas de luta, de guerra, de tremores, de vendavais, de mudanças... por mais violentas que sejam não são o que nos levam a um outro? Um sempre mais? Cuidado de si, Polímnia... deve se ter a ver com isso, sempre uma tentativa...
No entanto, é tudo tão diverso quando vivemos um devir na pele...
Penso, talvez seja a hora de mudarmos de nome, ou, talvez, de deixarmo-nos mudar com o nome, mudando de nome, mudando de forma, largando o casulo e voando flor.
Te quero muito bem, grã-sacerdotisa.
Hipólita
Um comentário:
mas a amazona jamais se vai completamente. deixe que ela adormeça em você, ferida e fêmea, amando os cavalos e suas iguais, fazendo um uso qualquer dos homens.
agora seu nome é bem mais delicado e não nasceu nas mais grandiosas mitologias, mas em um pequeno jardim. seu nome, ao menos hoje, é Lily ou Lírio. porque repousa em beleza, aquela suave dos que vivem no campo: "Olhai os lírios do campo; eles não trabalham nem tecem; no entanto eu vos digo: mesmo Salomão, em toda sua glória, não se vestiu como um deles"... Cito as palavras de um certo Senhor sabendo que você as profanará bonita feito a deusa pagã que é.
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