24 de mar. de 2011

até logo

Minha Jaia,

no meio da confusão profusa de pedidos, nem tive tempo de contar, contive em esquecimento, amanhã estarei no Rio, num encontro de 1 dia, coisas da UFRJ.
Sabe, foi uma delícia te ver ontem e perceber que o tornozelo é apertado, mas é frouxo - na mesma corda - e que disso, como lembrou a Esmeralda, emerge o elo, zelo de quem ama.
Isso salta da sua mata habitada por tantas variadas criaturas fantásticas, miseráveis, vazias, repletas, incompletas, como o segundo sol, o mestiço, o que há no meio do meio de nós e do mundo- diz Kepler, não é o sol, nem a terra - é uma multiplicidade de tudo.
Quis te deixar uma carta antes de viajar, depois do jantar, mas agora já é almoço e o japonês veio atrás de mim, reclamar do sushi que era pra ser sashimi, enfim...
Amanhã é um dia grande, cheio de coisas, com um francês que vai falar de tarde: Deleuze e tudo o mais...
ó, querida, como ando distante disso tudo... e toda a filosofia do mundo não caberia aqui, aqui perto, sabe?
E você achava que o sol era o rei, o deus, até descobrir o seu pai... e nem era o sol, né? nem era o seu pai, também... no fundo, no fundo, somos nós no sol, somos nós no pai... somos nós com nós
somos nós sem nós
somos nós

os nós.

E eles? e aquilo? aquele? aquela? a terceira margem do rio? a terceira pessoa? a terceira mulher? o terceiro mundo? michel serres apontou, e acima: lançou as flechas, as três.
oxóssi guerreiro, querida, guerreiro das matas das palavras.
você e eu: polímnia e hipólita- amantes das palavras, guerreiras desajeitadas do verbo.

sabemos da dor, da dor do mundo, do que se esconde por detrás, no cantinho.
Que espanta, apavora, o mato e o fantasma do mato, a melancolia e a tristeza, que em música é senhora.
sabemos porque vivemos.
quem vive, sabe.
sabe.

sabe, querida, penso que a mistura é a melhor coisa do mundo.
talvez a grande realização do universo.
de todo o universo.
esssa coisa danada, essa coisa boa de mistura!
você não acha?

saudades, saudades...

sempre saudades,

porque nunca é suficiente a palavra.
mas, ainda assim, expressa.

um sempre...

até logo

2 comentários:

Jaia disse...

Voltei. Ou melhor, sempre estive aqui. Só andava meio distraída. Vem me ler.

Dauri Batisti disse...

Linda escrita, escritura de belezas, levezas de dizer coisas pesadas.

Um beijo.