12 de set. de 2006

Palavra, a soberana

Hoje as palavras me vêm facilmente, como uma leve brisa matinal após um calor abrasante. Fico feliz por esse reencontro amistoso, há tempos que nós andávamos distantes, intransigentes. Eu brigava daqui, elas, com sua força enormemente superior, bradavam de lá e o bulício era tamanho, que todos ao redor percebiam a guerra iminente que se travava entre nós. No entanto, por ora, parece que fizemos nosso acordo de paz. Não sei bem quem hasteou a bandeira branca; nessas horas, isso não é de muita valia. Ainda existe certo ranço entre nós, é fato, mas estamos numa laboriosa batalha – dessa vez, positiva – para que esse resquício seja apagado, varrido, exilado, para sempre de nossas memórias.
A Palavra, essa tem memória curta. Sai sorrateiramente, sem muito medir seus efeitos e joga-se assim, meio despretensiosa às vezes, totalmente impulsiva, na maior parte dos casos, mas muito carregada de reticências e simbologias que não entendemos muito bem... Existe um enorme abismo entre nós, mas já tentamos solucionar isso também. E para falar a verdade, sem falsa modéstia, dessa vez a idéia foi minha. Chamei a Palavra – a soberana, a rainha de todas elas, porque só ela resolve problemas de diplomacia entre reinos- mandei um mensageiro, o Pensamento, por depositar certa confiança nele, já que nasceu em minhas moradas, foi criado sobre minha tutela e é um fiel escudeiro, embora, às vezes, um tanto rebelde, mas ultimamente sei como lidar com suas crises de identidade. A Palavra demorou-se demais, quando esta enfim chegou aos meus domínios - e isso foi como uma eternidade, visto que ela tinha que transpor um abismo - disse-lhe, assim de sobressalto, sem medir direito o que dizia, talvez sem o requinte necessário: “ Palavra, tu que me és tão cara, quero que nós tenhamos um acesso mais estreito, quero que nos aproximemos mais.”
A Palavra olhou-me intensamente, como alguém que pretende desnudar-te a alma e disse-me francamente: “ É querida Paula, tu tens razão, precisamos estreitar nossos laços, vejo que tu necessitas de mim. Uma necessidade premente, eu diria.” E calou-se de forma tão abrupta, fitando assim seus olhos cor de amêndoa em mim, que senti-me impulsionada a retribuir-lhe de alguma forma: “ Tens razão, cara Palavra. Por isso tive a brilhante idéia que vou contar-lhe agora. Mas primeiro sente-se, desculpe por não ter notado que estavas de pé por demasiado tempo. Foi uma falha minha, mas para compensar, ofereço-te uma xícara do mais saboroso chá inglês. “ Neste momento Palavra, a soberana das palavrinhas, sentou-se e aconchegou-se na minha mais macia poltrona e sorveu delicadamente o chá que lhe fora servido. Observei satisfeita a expressão de agrado em sua face. Então, subitamente, como quem sai de um transe, Palavra, a soberana, disse-me: “ Conte-me, querida, qual foi sua esplendida idéia. Como sabes, tenho um reino a comandar, e o caminho até aqui é muito longo, de forma que já deixei meus súditos por muito tempo, tenho pressa em regressar. Por favor, não se demore em detalhes, preciso de sua mais profunda concisão.” Diante de tais súplicas, vi-me ansiosa e impelida a contar-lhe logo minha magnífica idéia: “ Palavra, a soberana, Digo-te então, sem mais delongas. Vamos construir uma ponte entre nossos reinos. Dessa forma teremos acesso muito mais rapidamente, e tu não terás que ter pressa quando aqui vier. “ Palavra ficou com as feições resplandecentes, vi o fulgor em seus olhos, e ela então, sentenciou:” Já devíamos ter feito isso há mais tempo. Não sei porque insistimos naquela contenda. Mas não vamos mais falar sobre isso. De todo modo, tens minha permissão para erguer tal ponte. Agora, querida Paula, tenho que ir-me.” Disse isso com certo pesar, pude notar no tom de sua voz, diria até que ficou ligeiramente embargada e que seus olhos estavam lacrimosos. Levantou-se, cumprimentou-me com um afago nos cabelos e um beijo na testa e dirigiu-se para sua carruagem. Eu, estarrecida, como sempre fico diante da Palavra, a soberana, fiquei embasbacada por alguns segundos. Não abria a boca. E com lágrimas nos olhos, vi Palavra indo embora. Não vou negar que neste mesmo dia ordenei a construção da ponte, que tornaria Palavra e eu mais íntimas, quem sabe até amigas ou confidentes. Seria, para mim, um enorme regozijo tal vivência. A ponte está sendo construída ininterruptamente, tenho homens que se revezam dia e noite, para que não se demore muito a possibilidade de rever Palavra. Um dia, numa época não tão distante, eu e Palavra fomos quase inimigas, brigávamos sem saber o verdadeiro por quê da contenda, mas ainda assim ouvia-se o barulho das espadas ao chocarem-se. É fato que não mantivemos isso por muito tempo, logo nos demos conta de que era uma batalha inútil. Éramos tão necessárias uma a outra, que não fazia o menor sentido prosseguir com a peleja. Desse modo, hoje, Palavra e eu somos novamente boas vizinhas e podemos nos reunir ao menos uma vez por semana para prosearmos, coisa que ela exerce muito bem, e tomarmos um delicioso chá inglês. Oxalá queira que nossa relação assim permaneça ad eternum.

Um comentário:

Babs disse...

Paula, não sei o que você anda fumando, mas eu quero também!