20 de set. de 2006

A sina de Isis ou o prosseguimento de uma história

E num rompante, desceu as escadas correndo, numa angústia demasiada, premente, de que só as mães são capazes. A todo momento pensava no filho e no horror de uma possível tragédia. Lembrava-se do irmão, João Alfredo, seu tão querido irmão caçula, com quem sempre foi muita apegada, seu companheiro e amigo. E então caía no choro, com medo de que o mesmo destino terrível que foi ao encontro de João Alfredo, pudesse, sorrateiramente, fazer mais uma vítima: seu próprio filho! Como seria drástico, como seria terrível, inimaginável! Não, não poderia ser. Deus não seria assim tão injusto com ela, tão cruel. Já havia lhe tirado o amado irmãozinho, não lhe tiraria agora o filho. Isso ela não seria capaz de suportar. Todos diziam, comentavam sempre, que depois da morte do irmão, Isis não era a mesma. Além de ter entrado num processo depressivo do qual só saiu quando conheceu Henrique, dois anos mais tarde; as pessoas só a viram sorrir quando Carlinhos nasceu. Carlinhos era tudo para ela: era a possibilidade de ser feliz novamente, era o irmão ali reencarnado, era o filho que sempre sonhara, era o amor em todas as suas facetas. Ela não conseguia conceber uma vida, uma existência em que não pudesse ver o filho, tê-lo ao seu lado, responder às suas perguntas indiscretas, ensiná-lo a dançar, a montar Pedro, a ler bons livros, uma infinidade de coisas, que um pequeno descuido de Henrique na direção, poderia minar. Carlinhos representava toda a sua vida e, conseqüentemente, felicidade. Ver seu sorriso, escutar sua vozinha, estar cochilando e então ouvir aqueles passinhos saltitantes vindo para perto de sua cama, louco para lhe contar ou perguntar algo- isso para ela era a felicidade em seu mais puro estado! Como Carlinhos a deixava maravilhada!
Com esses pensamentos, começou a deambular de um lado para o outro no escritório, que por ironia do destino, ficava embaixo do quarto de Carlinhos. Olhava para um armário hermético, num canto esquerdo e passava as mãos pela fronte num ato da mais autêntica aflição. Estava trêmula, suando frio e lânguida. Só pensava no filho, o filho era a única coisa importante em sua vida, sem ele, preferiria nem viver.
Isis era uma mulher diferente, talvez isso tenha sido selado em seu destino- essa predestinada distinção- quando a parteira, ao tirá-la do aconchegante útero materno, após muitas horas de espera, olhou para ela e revelou: “ Essa menina, Dona Joana, vai ser uma mulher diferente!” A mãe achou que isso seria bom, esse devia ser um bom presságio, algo que alguém devesse gostar de ouvir sobre seu filho, mas a parteira emendou: “ ela tem um dom e quando ele der sinal pela primeira vez, muitos vão maldizê-la, poucos irão respeitá-la.” Sentenciou assim, num acordo tácito com o destino, que ainda estava confuso sobre o que reservar para Isis, que suas previsões se tornariam concretas: Isis teria o dom da visão. E com um ano, quando mal sabia falar direito, Isis foi andando em direção ao cachorrinho de seu irmão mais velho e ficou brincando com ele por uns 15 minutos, depois saiu abruptamente do lado do bicho, chorando. A mãe a pegou no colo e quis saber o que houve. Isis somente disse: “Au-au dodói.” A mãe estranhou, até aquele momento o cachorro estava ótimo, corria por todos os lados e não dava sossego com seus latidos. Uma semana depois, Acapulco, o cãozinho de seu irmão mais velho, após uma doença pavorosa, em que saía sangue por todos os poros, morreu, numa poça ensangüentada. O irmão, quando o encontrou, ficou com raiva da pequena Isis e começou assim o ressentimento que sempre os acompanharia e o destino de Isis a se cumprir inexoravelmente.
E sucessivamente ela ia adivinhando as mortes na família, as tragédias e as coisas boas. Às vezes, vinha num sonho e ela já acordava com a certeza de que aquilo que sonhara iria, de fato, acontecer. E como a parteira predisse, muitos a condenavam, chamavam de bruxa, acusavam-na de pacto com o diabo e outros, esses em menor número, queriam saber se Isis tinha alguma novidade pra eles. A única coisa que essas facções tinham em comum, era o temor diante das visões da mesma. Essa fase das revelações de Isis, foi até a morte de João Alfredo, quando Isis já era uma mulher, tinha 23 anos.

A CONTINUAR...

4 comentários:

Eduardo Oliva disse...

Fiquei curioso em conhecer mais o perfil psicológico de Isis. Vi muito de você em todos os personagens e também do excremento necessário proposto pelo blog.

Xeru

:?

Eduardo Oliva disse...

Tenho lido muito Rubem Fonseca, e percebo que ele retrata o cotidiano em suas crônicas sem impor um comportamento pseudo-intelectual, de criticar ( isso é certo, isso é hipocrisia, deveria ser assim)...essas coisas. E é por isso que ele escreve em prosa corrida. Comprei "O buraco na parede", fantástico!, e todos os contos têm um desfecho criminoso. Ele retrata o ser humano como ele é (o que faz com que seja comparado a Nelson), e foi isso que despertou em mim a vontade de estudar mais esse gênero.

Beijos hiperbólicos!

Eduardo Oliva disse...

Calma Fënix, nao fiquei constrangido nao, e o tal pseudo intelectual não foi nenhuma direta pra ti não, nem p mim. Tive que passar aqui pra elucidar. Respire fundo e conte ate tres =)))


Xeru

Eduardo Oliva disse...

*(...)ele retrata o cotidiano em suas crônicas sem impor um comportamento pseudo-intelectual, de criticar(...)* foi em relacao ao modo de ver a cronica, entende, pq quando escrevo os pensamento vÊm sem que se crie, necessariamente, aquela estrutura narrativa tão batida por nos no curso da pos.

Beju!

PS - esse teclado ta *&¨&¨&&¨%%!!!!