25 de jul. de 2011

era tarde

é, o Chico só bebia cerveja sem álcool, teve certeza quando o viu de novo com a latinha de liber e seu cigarro:
ex-viciado, quem sabe?
era de tarde e lá estava ele sentado no boteco, a cabeça meio baixa contemplava o impalpável; parecia se compenetrar em algo, algum pensamento obsessivo, talvez... era de tarde  e as ideias tolas vagueavam a mente da moça que caminhava atrás do pó de café, na padaria. Passando pela banca de revistas cumprimentava os conhecidos; a mesma coisa na farmácia; o dono do boteco ao lado - todos já haviam criado uma rede, todos se conheciam bem e acompanhavam os hábitos uns dos outros: a mesma coisa de sempre, a mesma coisa das tardes, mesma e diferente, ao mesmo tempo.
Quando saía só, ouvia logo: cadê o bebê? está bem? com quem? como? etc...
e essa liberdade vigiada até lhe agradava um pouco, dava-lhe a sensação estranha de estar em casa, de ter uma casa, conhecidos, amigos, não era mais tão estrangeira, estranha no ninho: todos a conheciam, seus hábitos, um pouco de suas manias... e teve vontade de ligar pro marido e avisar que o Chico bebia cerveja sem álcool. Procurou o telefone, esqueceu em casa. Outro dia ela já havia comentado isso com ele, na ocasião em que observou o fato. O Chico, apelido que os dois deram àquele homem por se parecer muito com o cantor, era uma figura interessante, vivia no boteco, e constantemente com um ar reflexivo, um tom pensativo e de certo pesar... os dois cativavam uma certa admiração recolhida pelo Chico... mas esqueceu o telefone e deixou pra lá, depois contava e fabulava em cima da vida do Chico, como tantos outros deviam fabular sobre a sua própria.
era de tarde e tomava seu café para acordar. fazia tempo que não escrevia, tinha ouvido muito o Chico ultimamente, estranha coincidência... e começava falando de um Chico. O amigo Chico estava em Beagá, nem dava notícias, nem nada...
era de tarde e foi ver  resultado do teste de gravidez: deu negativo: alívio e tristeza... loucura e sensatez:
- outro filho, agora? não podemos! não devemos! como faremos?
ah, a vida... cheia de enigmas corriqueiros... cheia de filhos nascendo, sendo... gerando, morrendo...
o meu dorme, dorme sempre um bocado pelas tardes...
era de tarde e já ia ficando tarde,  não fazia outras coisas... queria fazer algo pelas tardes, inventar manhãs, noites, domingos... em plena tarde, antes que tarde fosse... ou inventar segundas-feiras - dia que sempre se faz muita coisa!
era tarde e já vinha o crepúsculo trazendo a hora et cetera, aquela em que tudo pode acontecer:
o imprevisto...
era tarde e os vizinhos não podiam saber de tudo.
era tarde...
e acabou um mundo!

4 comentários:

Alpa Zen disse...

Maravilhoso neném, Maravilhosa mamãe, Divino maravilhoso! Beijos

Anônimo disse...

O tempo que se abre e se fecha nos corações...

C.

Polímnia disse...

Assim, morta de saudades, leio seus devaneios. Andei sumidas nos meus - esses fantasmas estranhos que atravessam minhas janelas fechadas. Vamos nos ver?

cisco disse...

Chico? Que Chico? Sumido? Cerveja sem álcool?! Eu? Um, nenhum, cem mil. Que eu, que dois, que dez, que dez milhões. Todos iguais.
Assobiando para embalar seus sonhos
de personagens múltiplos, de desejos confusos.
Um beijos e um queijo.
Um chico.